A VIDA SEXUAL DA MULHER FEIA
MARIA CLAUDIA TAJES
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Orelhas do livro
Orelha esquerda:
A Claudia Tajes escreve bem pra caramba.
A Claudia Tajes uma das escritoras mais engraadas que apareceram nos
ltimos tempos. "Escritoras" no. Ela um dos escritores mais
engraados que apareceram nos ltimos tempos.
A Claudia Tajes tem o poder de criar personagens impagveis, coisa que
pouqussima gente sabe fazer. E no faz isso ocasionalmente. A Claudia
escritora proficua: este o seu quinto livro. Todos os anteriores - Dez
quase amores, As pernas de rsula, Dores, amores & assemelhados e Vida
dura - so uma delcia.
A Claudia Tajes fala de assuntos do cotidiano. O leitor rapidamente se
identifica com a leveza do texto, mas ela no fala apenas de assuntos do
cotidiano. Tem uma maluquice nas histrias da Claudia, tem sempre uma
doideira espreita nas entrelinhas, que, ao meu ver, o que realmente
mexe com o leitor - a leveza de forma, no de contedo.
Alm de tudo isso, a Claudia Tajes uma maravilha de pessoa. A
autntica gente fina, O que no assunto para uma orelha. Mas nem s de
orelhas feita a vida.
Boa leitura: A vida sexual da mulher feia hilariante. Eu li no avio e
passei a maior vergonha. Todo mundo do vo ficou se perguntando quem era
o maluco que no parava de rir na poltrona 8C.
Marcelo Pires.
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Orelha direita:
Claudia Tajes nasceu em Porto Alegre, em 1963. Redatora publicitria,
estreou na literatura com Dez quase amores (2000, L&PM). Para a
escritora Cntia Moscovich, a autora demonstra, desde a estria, "uma
habilidade espantosa para desencavar a graa do seio da desgraa".
Outras obras: Dores, amores & assemelhados, As pernas de rsula (ambos
em 2002, L&PM) e Vida dura (2003, Maneta).
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AGir
Copyright 2005 by Maria Claudia Tajes
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19.02.1998
Capa
Rafael Bohrer
Foto da capa
Raul Krebs/Estdio Mutante
Copidesque
Paulo Corra
Reviso
Isabella Leal
Rachel Agavino
Produo editorial
Felipe Schuery
Assistente editorial
Mara Alves
CIP-BRASIL. CATALOGAO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
T141v
Tajes, Claudia
A vida sexual da mulher feia / Claudia Tajes. - Rio de Janeiro: Agir, 2005
ISBN 85.220.0705.X
1. Mulheres - Condies sociais. 2. Mulheres - Comportamento sexual.
3. Beleza feminina (Esttica). 4. Imagem corporal em mulheres. - Corpo e
mente. 1. Ttulo.
05-2919. CDD 305.42
CDU 316.346.2-055.2
Todos os direitos reservados
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Rua Nova Jerusalm, 345 - CEP 21042-235 - Bonsucesso - Rio de Janeiro - RJ
tel.: (21) 3882-8200 fax: 3882-8212/8313
Para Mirian Tajes,
uma mulher muito bonita.
SUMARIO
1. Apresentao 9
2. As teses da mulher feia
2.1 O nome 11
2.2 A criao 11
2.3 Apsiqu 13
3. O amadurecimento da mulher feia
3.1 A descoberta 14
3.2 O primeiro beijo 21
3.3 O defloramento 24
4. Breve histrico dos amores da mulher feia
4.1 Viso geral 29
4.2 Rbson 31
4.3 Tiaraju 39
4.4 Augusto 53
4.5 Otelo 58
4.6 Annimo Um 69
4.7 Zico 74
4.8 David 86
4.9 Annimo Dois 101
4.10 Rocha 110
5. Concluso 121
Agradecimentos 133
7
1. APRESENTAO
EU SOU AQUELA QUE, quando cruza a sala a caminho da
xerox ou levanta para pegar caf na garrafa trmica, ouve
dois colegas do escritrio falando em voz supostamente
baixa: "Entre a Tu e a morte, quem voc escolheria?"
Eu sou o que todo mundo chama de mulher feia. No
muito feia, tipo de mulher que, segundo alguns, tem l os
seus encantos. Cansei de ler que Clepatra era muito feia, e
ainda assim teve Jlio Csar e Marco Antnio e mais
centenas de homens que quis. Mas claro que ser rainha devia
facilitar um pouco as coisas.
Nas festas de fim de ano da empresa, quando todas as
garotas ganham algum prmio, A Melhor Bunda, A Melhor
Boca, Os Melhores Peitos, As Melhores Coxas e outros
reconhecimentos que no dependem de dedicao ou esforo -
s de Deus e, eventualmente, de um professor de ginstica -,
eu sou aquela que nunca leva nada. O Melhor Pescoo j me
deixaria satisfeita. Ou ento As Melhores Orelhas. O Melhor
Nariz eu jamais ganharia, o meu um tanto grande para os
padres da sociedade atual. Talvez as coisas fossem
diferentes se eu tivesse nascido na poca da Clepatra.
Eu sou aquela que muda o cabelo e sempre fica pior, que
sai de roupa nova e ningum repara, que passa festas
inteiras fingindo que dana com os amigos, quando na verdade
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est danando sozinha. O que poucos sabem que, para
mim, tudo isso tem uma finalidade cientfica: j faz algum
tempo que estudo a sexualidade da mulher feia, assunto
que, at onde posso lembrar, jamais foi abordado pelas
revistas femininas, pelos programas para donas de casa no
meio da tarde, pelos livros de auto-ajuda.
importante deixar claro que o objeto das minhas
observaes sou eu mesma, embora existam pontos em
comum entre as experincias aqui descritas e as de outras
mulheres, todas feias, evidentemente. Histrias que ouvi
desde pequena nas conversas da minha famlia, nas
confidncias das amigas, nas vezes em que escutei sem querer e
quando fiz fora para escutar, nos banheiros pblicos, nos
nibus estourando de gente e nos bares lotados de moas e
velhas tristes.
Os captulos a seguir se referem a tudo isso e me
levaram a concluir, ao fim do meu estudo, que a mulher feia no
apenas uma deformao da esttica.
A mulher feia um estado de esprito.
2. AS TESES DA MULHER FEIA
2.1 O nome
OS PAIS DE uma menina recm-nascida no podem
imaginar que um dia ela se transformar em mulher feia. Mas
talvez seguindo algum instinto, eles dificilmente daro filha
um nome bonito.
No existe mulher feia chamada Nicole e raramente
uma delas atender por Jlia, Letcia, Brbara, Yasmim. Em
compensao, so incontveis as Crisleines, Rosineides,
Greicelanas, Claudiomaras e todos os nomes que unem outros
dois, ou at trs, num nico, e indito, substantivo prprio.
Eu mesma fui registrada como Jucianara e, nas vezes em que
reclamei com a minha me por me chamar assim, ela respondeu:
- No poderia haver nome que combinasse mais com
voc.
2.2. A criao
Comeo este captulo ignorando minha infncia por
considerar que toda criana bonita, embora no parecesse
10 11
ser essa a opinio de meus colegas, amigos, parentes em
geral, irmos e pais. Minha av materna no cansava de
elogiar minha meiguice, ao mesmo tempo que falava da beleza
dos outros netos. Hoje entendo isso como um prmio de
consolao, semelhante minha maior glria escolar, quando
fui coroada Miss Simpatia. Categoria de premiao que
conta muito mais com a compaixo dos jurados que com os
atributos das concorrentes.
Sa da infncia levando todos os quilos que deveriam
ter ficado nos parques e pracinhas por onde pulei e corri.
Muitos se juntaram queles durante o meu
desenvolvimento e, dos onze aos dezessete anos, posso dizer que
aumentei muito mais em volume do que em estatura - padro
que conservaria ao longo da vida.
Minha pele, meus cabelos, minha boca, minhas pernas
nunca se pareceram com essas mesmas partes que, desde
muito cedo, vi nos comerciais de sabonetes, cremes e
shampoos. E ainda que, eventualmente, eu aplicasse os tais
produtos, isso nunca melhorou minha aparncia. Meu cabelo
continuou indomvel, crescendo para cima e para os lados.
Minhas pernas no ficaram longas e lisinhas. Meus seios,
que de incipientes logo passaram a inconvenientes numa
poca em que o silicone ainda no dominava o mundo,
continuaram sofrendo a ao da gravidade dia aps dia.
Finalmente, minhas espinhas no desapareceram com os
cosmticos oleosos que deveriam me deixar mais bonita. Talvez
tenham mesmo aumentado e se tornado resistentes a todos
os tipos de tratamentos, verdadeiras espinhas-mutantes,
como eu as chamava.
Complementando o quadro, um guarda-roupa sem
nenhuma influncia da moda determinava o meu estilo. As
roupas escolhidas pela minha me, sempre calas e
camisas, com certeza cairiam melhor em qualquer um dos meus
irmos. As demais eram doadas por uma prima mais velha, o
que me obrigava a andar sempre um outono/inverno/
primavera/vero atrs das tendncias em uso. Se as mulheres
desfilassem pantalonas, eu estaria com as calas justas que
minha prima no queria mais. Quando as garotas vestissem
minissaias, eu, qual uma muulmana radical, me cobriria
com longas saias vindas diretamente da estao passada.
Preciso acrescentar que o fato de a minha famlia de
classe mdia baixa no ter condies financeiras ou mesmo
informao para permitir que eu me vestisse com mais acerto
no contribuiu, decisivamente, para piorar minha aparncia.
Lembro de uma colega de aula muito feia, Andremara, filha do
dono de uma revenda de automveis, que a cada dia desfilava
modelos vindos diretamente das lojas que eu mais admirava.
Longe de valorizar o investimento do pai, as roupas apenas
realavam o mau aspecto da garota atarracada e baixinha,
atraindo, ainda, a inveja das outras colegas. Com exceo de
mim, todas mais bonitas. Como eu, todas mais pobres que ela.
No dia em que foi aula vestindo um macaco de
inspirao espacial, semelhante ao que uma atriz da novela das
sete havia usado alguns dias antes, Andremara recebeu o
apelido de Salsicho do Futuro. E, at sair da escola chorando, no
fim do ano, nunca mais foi chamada por outro nome.
2.3. A psiqu
Em qualquer situao, a mulher feia sempre aquela
que mais rapidamente se sentir vontade. Este fenmeno,
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observado nos mais diferentes grupos, eventos, encontros e
ocasies sociais, pode ser explicado com a anttese do que o
marketing e as revistas de celebridades proclamaram como
norma principal nos nossos dias: a mulher feia no precisa
cultivar a prpria imagem.
Tomemos o exemplo de uma festa.
Enquanto a mulher bonita chega cercada por certo
mistrio, economizando nos sorrisos e nas palavras, a mulher
feia se desvenda logo na entrada, cumprimentando os
convidados um a um e distribuindo sorrisos at para os
seguranas. certo que ela se abraar a vrios dos homens e
mulheres presentes, independentemente de seu grau de intimidade
com eles, declarando seu apreo e gritando perguntas que
exigiriam mais privacidade e proximidade para as respostas.
Toda mulher feia se diverte como se cada festa fosse a
ltima.
Presena confirmada nas rodinhas, formaes criadas
para as sem-par e as sem-esperana-de-conseguir-um
danarem at o amanhecer, ela no se furta a executar passos de
mambo, salsa, samba, macarena, ax, pagode, remelexo,
fandango, forr, boi-bumb, frevo e demais danas
populares. Nessa mesma ocasio, a mulher feia mostrar tambm
outra das suas caractersticas, a generosidade, atraindo
para a rodinha mais mulheres feias que, por alguma razo,
ainda se mantenham sentadas.
A solidariedade tambm um trao marcante da espcie.
Sempre disposta a ajudar, a mulher feia ocupa seu
tempo livre executando tarefas de diversas naturezas para
parentes, amigos, colegas, vizinhos e simples conhecidos:
entrar em filas, pagar contas, visitar doentes que nunca viu,
resolver pendncias em bancos, credirios, companhias de
gua e eletricidade, lavanderias, sapatarias, lojas e afins,
fazer carns em seu nome para terceiros, acompanhar
velrios e enterros de desconhecidos que ela chora como se
fossem queridos, desembaraar documentos, telefonar para
obter informaes e liberaes, pedir graas e cumprir
promessas. A no ser nos casos em que, ao fracasso esttico, se
associar tambm o amargor da alma, por certo decorrente
do primeiro, a mulher feia ser sempre descrita como
prestativa, simptica, confivel, boa-praa, sser humano
exemplar e grande companheira.
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3.0 AMADURECIMENTO DA MULHER FEIA
3.1. A descoberta
ANTES DE TOMAR conscincia da sua feira, a mulher feia
vai, invariavelmente, descobrir o amor.
Fiz esta constatao ainda no pr-primrio, primeira
experincia de convvio com crianas da minha idade. Mais
de trinta anos depois, lembro com exatido das folhas com
desenhos dos alunos coladas pelas paredes, do cheiro da sala -
mistura de tinta, cola e uniformes suados -, da professora
ruiva que quase no me dava ateno, sempre ocupada com
as meninas bonitinhas da classe, da minha melhor amiga,
uma gorducha estrbica chamada Lucilei. E dele, Artur.
Artur era loiro, com olhos cor de mel, muito mais
parecido com um prncipe que o ator mirim contratado para este
papel no quadro "Boa noite Cinderela", do Programa Slvio
Santos. Numa poca em que os Simpsons e Bob Esponja
jamais seriam entendidos pelas famlias brasileiras, meus
pais, irmos e eu nos reunamos na frente da televiso para
ver uma garota pobre ganhar bonecas, bicicleta, vitrola,
brinquedos e mais o que me parecia uma montoeira de
prmios, s no sei ao certo depois de fazer o qu. Nada que
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envolvesse pedofilia, acho. Pois Artur, o prncipe, sentava
na mesma mesa que eu, a cadeirinha quase encostada na
minha, e v-lo sempre ali me fez perceber que a minha curta
vida s tinha sentido perto dele.
Comecei a pedir para chegar mais cedo ao colgio, e mais
cedo, e mais cedo, a ponto de almoar de p, com a merendeira
j nas costas, para sair to logo o primeiro adulto cruzasse os
talheres. Geralmente era meu pai, que, contrariado, levantava
da mesa s pressas para me deixar na porta da escola ainda
fechada. Eu no me importava de esperar ali, sozinha, at que
as crianas comeassem a chegar, a maioria delas
praticamente empurrada para dentro dos portes. Assim eu veria
Artur desde que sua cabea dourada surgisse na rua, e
aproveitaria essa vista at a campainha que anunciava o fim das
aulas ser tocada pela diretora da escola, mulher de feira
indiscutvel. E ento Artur desapareceria, levado pelas mos
de uma me to loira quanto ele.
Mesmo antes de saber que o que eu sentia era amor,
cumpri, passo a passo, a sina de uma feia apaixonada.
Tentando conquistar Artur, passei a entregar a ele
minha merenda, em um primeiro momento, e meus brinquedos,
logo depois. Ioi, bola de gude, pega-varetas, baralho do
Batman, anel do Batman, cinto do Batman, domin, cinco marias.
Tudo que coubesse nos meus bolsos ou na minha merendeira
foi transferido para Artur. Minha me pensou que eu, em um
ataque de desatino infantil, tivesse quebrado todos os meus
brinquedos e escondido as provas. Neguei at o fim, o que
no evitou que ela me batesse com o Vermelho, um chinelo
gasto de borracha vermelha que ficava pendurado
permanentemente na rea de servio, espera de que algum dos filhos
sasse da linha. Quando s sobraram algumas bonecas e
panelinhas no meu quarto, recorri ao acervo dos meus irmos
para continuar presenteando Artur. At mesmo uma revista
de mulher pelada que Everton, o mais velho, escondia com
todo o cuidado na gaveta do meio da cmoda virou
propriedade de Artur. Lembro da surpresa do garoto quando recebeu
o presente.
- Para voc.
- O que ?
- Sei l, mas o meu irmo adora. Tem mulher pelada.
- Mulher pelada?
- Como a sua me , sem roupa. Olhe e voc vai entender.
O resto da tarde Artur passou vendo a revista, por certo
imaginando a me to nua quanto a modelo das fotos. s
vezes penso no que pode ter acontecido a partir da: Artur, de
quem nunca mais tive notcias, desprezando as muitas
mulheres que com certeza o quiseram, tenha ele continuado
como o prncipe loiro do meu passado ou no, para sempre
apaixonado pela imagem da primeira mulher de pernas
abertas que viu. Em seu imaginrio, a me.
Numa tarde em que a turma fazia colagens com papel
colorido, cortei caprichosamente um corao cor-de-rosa e
escrevi nele a letra A, a nica que eu sabia poca, por sorte a
inicial do meu amor. Mostrei para Artur, que olhou de
qualquer jeito e continuou fazendo seu prprio trabalho.
Insisti.
- para voc.
- Eu no quero um corao rosa.
Aos seis anos, no sei de onde tirei coragem para dizer.
- Mas tem a letra A. de Artur. porque eu gosto de voc.
- No quero que voc goste de mim. Voc feia.
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Artur encerrou o assunto e voltou sua colagem,
enquanto a gorda Lucilei interrompeu o recorte de uma flor toda
torta para me informar:
- Ele chamou voc de feia.
Rasguei o corao de papel e no disse mais uma
palavra. Em casa, a cabea apoiada no colo da minha me, falei o
que atormentava meu corao de carne, igualmente rasgado.
- O Artur da minha aula me chamou de feia...
Minha me permaneceu quieta, a mo alisando os
cabelos duros e crespos que me nasciam na testa.
- Ele me chamou de feia...
- E o que mais voc fez na aula hoje?
O silncio constrangido da me ficou, em todas as
minhas recordaes, durante toda a minha histria, pela
minha vida inteira, como um atestado de feira assinado e
reconhecido pela autoridade mais competente. Ou mais
incompetente, considerando a parte fundamental que os
genes dela desempenhavam na minha tragdia esttica.
- Ele me chamou de feia...
- Shhhhhh, querida, a novela comeou.
A partir de ento passei a me classificar como feia, no
de maneira depreciativa, mas para retratar minha principal
caracterstica, da mesma forma que algumas garotas se
descreviam como loiras, ou altas, ou com olhos azuis. Mas claro
que eu teria preferido ser uma loira alta de olhos azuis, se me
fosse dada a oportunidade de escolher.
Estvamos perto do fim do ano e meus progressos com
Artur se limitavam s palavras que eu dizia quando entregava a
ele meus pertences. Um dia o garoto no foi aula, e no outro
tambm no, e nem no outro. Trs ausencias consecutivas que
me deixaram ausente de tudo, sem vontade de pintar o ursinho
peludo ou recortar o cozinho mimoso, como queria a
professora. Ento a me de Artur apareceu para contar que a famlia
estava de mudana para o interior e que o filho no voltaria
escola. Ela entregou para a professora ruiva uma grande sacola
transparente em que todos os presentes dados por mim se
mostravam e se misturavam, e agradeceu a gentileza da amiguinha
que havia emprestado tantos brinquedos para Artur.
Voltei para casa rebocada por nossa empregada, ela
carregando os brinquedos, eu sem vontade de caminhar. Em
casa, minha me espalhou o contedo da sacola no cho e aos
poucos minhas antigas propriedades foram voltando a seus
lugares nas prateleiras. Assim como as de meus irmos.
- Meu peo! Por que voc levou meu peo para a escola?
- Meu Matchbox* de corrida! Eu apanhei com o
Vermelho porque a me achou que eu tinha perdido!
Aos gritos, meus irmos foram reavendo os brinquedos
que durante meses eu levei para Artur. S faltou a revista de
mulher pelada, que Artur no devolveu, e pensei na minha
sorte, afinal, Se o pequeno pr-onanista no tivesse ficado com
a revista, eu sofreria duplamente as conseqncias do roubo,
na mo de meus pais e do meu irmo Everton.
Para encerrar o caso, minha me me bateu com o
Vermelho, mas s burocraticamente. Ou ento fui eu que no senti,
com tudo o que a minha alma doa.
3.2. O primeiro beijo
Antes de ser uma mulher feia, eu era uma adolescente
feia. No vou me ater aqui - at por no haver quem no os
___
* Marca de carrinhos de brinquedo (N. do T.)
20 21
conhea - aos desatinos hormonais que ocorrem nesse
perodo e que se traduzem em espinhas, excesso de peso, cheiros
cidos e uma tristeza to grande que quase um milagre as
estatsticas no apontarem nmeros mais expressivos de
adolescentes suicidas. S gostaria de observar que, para algumas
pessoas, as espinhas, o excesso de peso, os cheiros cidos e a
tristeza no passaro quando essa fase chegar ao fim.
Foi o meu caso.
Eu tinha ento quinze anos e gostava de um garoto que
era meu colega desde a segunda srie do primrio. Gostava
no conta exatamente o que eu sentia: eu amava, idolatrava,
sonhava, esperava, desejava e, como prprio da idade,
tambm me masturbava com a simples lembrana dele. Ao
contrrio de mim, Paulo Andr, como se chamava o meu colega,
estava atravessando a puberdade sem perder o aspecto
humano, e era, sem dvida, o cara mais bonito da escola. Mesmo
com grande parte das meninas do colgio igualmente
apaixonadas por ele, decidi que Paulo Andr seria o primeiro homem
a me beijar. E que minha boca no descansaria enquanto no
soubesse o gosto de sua boca.
A conquista de Paulo Andr se revelou um fracasso.
Embora nunca tenha repetido o ano, eu no era uma aluna
inteligente o bastante para que algum quisesse colar de
mim nas provas. Paulo Andr no quis, apesar dos meus
oferecimentos, e o plano de me aproximar dele por meio de um
desempenho invejvel em matemtica deu em nada. Nos
aniversrios que se seguiram, os poucos para os quais fui
convidada, ele no danaria comigo e com minhas calas de
tecido listrado, mas com todas as outras garotas de cala
Lee. Embora eu implorasse por uma daquelas, minha me
achava deselegante ir a festas usando jeans. E, no tempo a
que me refiro, era a me quem mandava, quando voc tinha
quinze anos.
Quando fiz dezesseis, Paulo Andr namorava uma
menina da nossa turma havia alguns meses, o que me fez ficar um
pouco mais feia, eu que vivia com o rosto inchado de chorar.
Foi ento que Renan, meu primo, uma das raras pessoas do
mundo capaz de fazer sombra s minhas espinhas, confessou,
no porto de casa, que me adorava desde a nossa infncia.
Deixei que Renan me beijasse por pena, s no sei se
dele ou de mim. A lngua do meu primo era spera e passei
todos aqueles segundos, que hoje sei terem sido muito
breves, com a sensao de que o gato de estimao da minha
me, um bicho gordo e velho chamado Sininho, estava me
beijando na boca.
Depois disso Renan saiu correndo e no apareceu mais,
nem na noite seguinte, quando o esperei no porto, nem nos
almoos de famlia, nos aniversrios de parentes ou no Natal.
A me dele, minha tia, justificava as ausncias alegando que
o filho praticamente no saa mais do quarto, estudando para o
vestibular. Mas eu sabia que o desaparecimento do meu
primo estava relacionado ao nosso beijo. E chorava.
Chorei tanto que acabei esquecendo Paulo Andr.
Naqueles dias, minha boca, em plena adolescncia, j no
conservava iluses sobre sentir o gosto de um homem to bonito.
Voltei a ver meu primo muitos anos mais tarde, no
casamento dele com uma loira classificada no terceiro lugar de
um concurso de modelos. Quis perguntar o que o fez fugir
naquela noite, mas no houve tempo. Renan, que j no tinha
espinhas, apertou formalmente minha mo e logo dirigiu sua
ateno ao casal atrs de mim na longa fila de cumprimentos.
22 23
3.3. O defloramento
Mulheres costumam esconder sua primeira vez no sexo.
Com as mulheres feias a tendncia acontecer o mesmo, com
uma diferena: no caso delas, o deflorador quem prefere
evitar a divulgao do fato.
Marcos era o irmo de um colega do terceiro ano, a nica
pessoa do sexo masculino que parava para conversar comigo
na rua. Todas as outras, incluindo meu pai e meus dois irmos
mais velhos, limitavam-se a um movimento de cabea, isso
quando fosse totalmente impossvel evitar o cumprimento.
Era uma tarde quente e eu havia ido ao supermercado
perto de casa comprar jujuba. Quando lembro dessa poca,
todas as minhas recordaes vm com gosto e cheiro de
jujubas. Eu era capaz de comer trinta pacotes por dia, tinha
compulso por elas. Talvez fosse mais honesto dizer que ainda
tenho e que, s vezes, chego a ir ao cinema apenas para pedir, na
bombonire da entrada, antes mesmo de comprar o ingresso:
um pacote com muitas jujubas vermelhas, por favor.
- No me oferece?
Avoz atrs de mim era de Marcos. Estava to preocupada
com as balas que no o vi no supermercado. Mas ele me
alcanou na rua e agora eu era forada a oferecer minha ltima
jujuba, justamente uma vermelha, a maior e mais cheia de
acar, reservada com cuidado para o granfinale do pacote.
Caminhamos lado a lado sem falar, o silncio cortado pelo
barulho de saliva que Marcos fazia ao chupar a jujuba. Ento,
depois que ouvi o som da minha bala descendo pelo tubo
digestivo dele, minha bala prestes a ser desintegrada pelos cidos de
outro estmago, uma pergunta me surpreendeu.
- Vamos ver televiso no meu quarto?
Era a primeira vez que um cara queria a minha
companhia para alguma coisa, ver televiso trancado no quarto, que
fosse. Cheguei a esquecer a tristeza pela jujuba perdida.
- Vamos, claro. S espere um segundo para eu avisar
minha me.
- Melhor no dizer nada. Daqui a pouco voc volta e
pronto.
Fiquei encantada com a determinao de Marcos e a
sensao de ser dominada por uma vontade mais forte e mais
poderosa. Desconsiderando as inmeras oportunidades em
que fui obrigada a fazer o que meu pai e meus irmos
mandavam, aquela foi a primeira vez em que me senti subjugada por
um homem. Uma experincia que dali em diante se repetiria
sempre. na minha trajetria de mulher feia.
Marcos abriu a porta de casa com pressa. Em seguida,
fechou todas as cortinas e procurou a presena improvvel de
algum em cada cmodo. quela hora, trs da tarde, seus pais
estavam no trabalho, o irmo provavelmente fumava
maconha com algum amigo, e a empregada j sacolejava em um
nibus rumo periferia. Sentei na beirinha da cama enquanto
ele dava duas voltas na chave.
- Para garantir que nada vai nos atrapalhar.
Marcos ligou a TV e sentou ao meu lado na cama, me
abraando pelas costas. Naquela poca eu estava um tanto
mais larga que hoje, o que o levou a esticar bem os braos para
completar minha circunferncia.
Tentando manter os olhos fixos na reprise de um dos
episdios de Skipy, o Canguru Amestrado, a que ainda ontem eu
assistia ao lado da minha me, na inocente sala da nossa casa,
senti a orelha subitamente inundada por algo mole e mido.
Demorei alguns segundos para perceber do que se tratava, a
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lngua de Marcos, ainda mais viscosa devido aos resduos de
jujuba que certamente se acumulavam nela. Da orelha a
lngua passou rapidamente para a minha boca, no sem antes
deixar sua marca pegajosa em todo o meu rosto.
Satisfeita por provocar os sons altos e roucos que
Marcos emitia, concordei quando minha mo foi guiada para o
meio das pernas dele. O que agora eu segurava h tempos era
o principal tema dos meus assuntos com outras garotas,
todas feias, j que as bonitas no me aceitariam em suas
turmas. Conversvamos durante horas sobre ELE, nossa
curiosidade maior, o grande mistrio do mundo, talvez no to
grande, no caso de Marcos. Eu precisaria viver mais para
avaliar aquela estrutura carnosa, fina e dura, com tufos de plo
que teimavam em se enroscar no meu anel em formato de
corao.
Em poucos segundos, a mo cedia lugar para a minha
cabea, firmemente empurrada naquela direo. Havia
muitos cheiros ali, todos to desconhecidos quanto identificveis:
jogo de futebol no intervalo da aula, suor do meio-dia, a Coca-Cola
no aproveitada pelo corpo. Ainda me entretinha com
essas descobertas quando minha bermuda com elstico na
cintura foi puxada perna baixo. No sei de onde me veio a
coragem para revelar a Marcos minhas intimidades at ento
jamais expostas. Pena ter que mostrar tambm minha barriga
saltada e branca.
Foi tudo muito rpido. Doeu um pouco, e mais nada.
Marcos levantou e disse para eu me vestir. Fiquei de bunda
para cima procurando a bermuda, que s achei minutos
depois, toda enrolada embaixo da cama.
Continuamos com aquilo pelos meses seguintes. Depois
de comprar o pacote de jujubas, que passou a ser repartido
em duas pores iguais, eu corria para o quarto de Marcos.
Alguns caras da vizinhana comearam a especular sobre o
que acontecia l, mas nem os meus irmos deram
importncia. Em respeito minha reputao, ou sua prpria, Marcos
negou o boato com convico.
Um dia, assim que saiu de cima de mim, ele me falou que
estava gostando de uma garota do colgio e que devamos
parar de nos encontrar. Respondi que aceitaria dividi-lo
sempre que fosse preciso e que, por mim, seguiria tudo igual. Uma
legtima frase de mulher feia que, sem saber, eu usava pela
primeira vez.
Marcos no quis.
Chorando rua acima, j em busca de uma desculpa para
explicar em casa tanto desespero s quatro horas de uma
tera-feira, meu consolo era saber que, a partir daquela tarde,
eu nunca mais dividiria minhas jujubas com ningum.
26 27
4. BREVE HISTRICO DOS AMORES
DA MULHER FEIA
4.1. Viso geral
ALGUMAS MULHERES feias compensam a falta de dotes
fsicos com o grande desenvolvimento de sua capacidade
intelectual. Como resultado, tornam-se profissionais brilhantes em
qualquer rea em que atuem, das cientficas s humansticas.
Em casos especficos, isso tem contra-indicaes. O fato de o
feminismo, em seu incio, ter como uma de suas principais
mentoras uma feia, a americana Betty Friedan, fez com que,
durante muito tempo, o movimento fosse visto como produto
das frustraes de mulheres mal-amadas. A entrada em cena
de Gioria Steinem, feminista loira, bonita e gostosa,
certamente azedou ainda mais o rosto e a alma de Betty, ao atrair
para uma militante menos preparada filosoficamente, porm
milhes de vezes mais bem acabada esteticamente, todas as
atenes da imprensa e da sociedade.
Sabe-se que Betty, agora longe dos temps de
celebridade, faz palestras pelo mundo em companhia de um homem
pequeno, calado e sem brilho, que muitos supem ser seu
marido. E o que levaria uma mulher fulgurante como Betty a
andar com um homem assim, se no fosse a prpria feira?
28 29
Mulheres feias costumam se envolver com os caras
menos indicados pelo bom senso. Casados, desempregados,
trabalhadores mal remunerados, problemticos em geral,
todos viram excelentes partidos, dependendo da solido de
quem os acolhe. Uma corrente defende que selecionar mal os
parceiros no seria prerrogativa das feias, mas das mulheres,
como espcie.
Concordo em parte. Com as feias, o quadro sempre
potencializado.
S quem sentiu na pele a dor de ser sempre preterida por
outra, qualquer que fosse a outra, pode avaliar a importncia do
galanteio dirigido pelo marido beberro da vizinha do 401. Se ele
continuar com as gracinhas sempre que a mulher feia atravessar
o saguo do prdio com suas sacolas de supermercado e seus
sapatos de salto baixo, tem grandes chances de virar seu amante.
Alista de candidatos, nesse caso, imensa.
- O rapaz com dois ou trs dentes faltando que entrega
folhetos no sinal de trnsito.
- O policial (casado, como a mulher feia saber j no
motel) contratado para fazer a ronda na quadra do prdio em
que ela mora.
- O homem que instala TV a cabo pirata.
- O genro do zelador do prdio em que a famlia passa as
frias desde que a mulher feia era menina.
- O ex-colega gordo que repetiu quatro vezes a stima
srie; um que, por ordem do pai militar, usava o cabelo quase
raspado, reencontrado por acaso em uma parada de nibus,
gordo como sempre e ainda careca, agora por razes alheias
vontade dele ou do pai.
- O dono do armazm da outra quadra, com a barriga
sempre para fora da cala e a esposa no caixa.
- O motorista do nibus que ela pega sempre na mesma
hora, sincero o bastante para confessar outras vrias
namoradas ao longo do trajeto e do dia.
- O advogado recm-separado depois de vinte e cinco
anos de casamento. Fuma muito, tem insnia e problemas de
ereo. Terminar voltando para a famlia depois de a mulher
feia passar noites e noites acordada, tentando o sexo oral
para reanim-lo.
muito provvel que a mulher feia passe a vida inteira
pulando de desamor em desamor, enquanto pensa ser amada.
Ao mesmo tempo, seria muito preconceituoso afirmar que
apenas as feias esto condenadas a love stories de segunda
categoria: muitas das bonitas tambm gastaro seus
melhores anos e esperanas em romances tristes e equivocados.
A diferena que elas tm mais escolhas.
importante ressaltar a grande capacidade de
superao da mulher feia. Cada relacionamento desfeito serve de
incentivo para um prximo e assim por diante.
caracterstica da mulher feia no ficar sozinha por longos perodos,
dividindo sua feira com quem se disponha a acordar com ela.
A seguir, sem ordem cronolgica, alfabtica ou mesmo
moral, relato algumas das histrias que vivi, como ilustrao
para a minha tese.
4.2. Rbson
Morei no mesmo endereo desde que me entendo por
gente, dividindo uma casa de trs quartos, construo de
alvenaria, com meus pais e dois irmos mais velhos.
30 31
Everton e Emerson, meus irmos, tinham apenas onze
meses de diferena e passaram a infncia e a juventude aos
socos. Everton acusava Emerson de ter usurpado seu lugar de
filho nico, e Emerson transferia a culpa para nossos pais e
sua pressa reprodutiva. Everton, em seguida, chamava minha
me para contar que Emerson culpava a ela pela infelicidade
da famlia Costa. A questo era invariavelmente resolvida
pelo Vermelho, o chinelo de borracha pendurado na rea de
servio. Ele encerrava, de forma instantnea, nossas brigas e
discusses, e deixava as bundas de Everton e Emerson to
vermelhas quanto ele.
Quando rodei pela terceira vez na oitava srie, meu pai
decidiu que eu iria trocar de colgio.
- S pode ser o mtodo de ensino. A menina no dbil
mental, ns fizemos os testes.
Durante a infncia inteira dos filhos, meus pais suspei-
taram que todos sofressem de disritmia, uma anomalia to
em alta no incio dos anos setenta quanto a cirurgia para a
retirada das amgdalas. Por causa disso, perdi a conta dos
eletro-encefalogramas que fui obrigada a fazer e quase posso
garantir que minha me se decepcionava a cada novo
veredicto de normalidade. J minhas amgdalas, felizmente, foram
extirpadas uma vez s. Seja como for, diante de mais um
fracasso escolar, meu pai usava a minha comprovada capacidade
cerebral para culpar a escola em que eu estudava.
Estudava, no caso, era apenas um modo de dizer.
Como tantas outras garotas feias, espinhentas, acima
do peso, de culos fundo-de-garrafa e malvestidas, fui
sempre excluda de todas as turmas escolares que freqentei,
obrigada a buscar amigos to excludos quanto eu para
sobreviver.
A gorda que fumava desde os dez anos de idade.
O garoto com fama de burro que, j adolescente, no
conseguia vencer o primrio.
Os filhos de faxineiros, garis, empregadas domsticas,
camels e demais profisses marginalizadas at mesmo entre
estudantes de colgios pblicos.
Todos os que usavam Conga, o tnis-smbolo dos menos
favorecidos, naqueles dias.
Pois esse era o grupo do qual eu fazia parte. Sempre
preocupados em evitar que os colegas os expusessem ao
ridculo, seus membros seriam mais facilmente encontrados
no ptio da escola, fumando e pensando em estratgias
para fugir dos deboches dos outros colegas, do que nas
aulas de portugus, geografia e matemtica. Massc isso meu
pai no sabia, e ento eu fui matriculada em outra escola
pblica, distante quatro bairros da nossa casa, o que me fez
descobrir um novo universo, cheio de aventuras e
possibilidades. O nibus.
Agora eu pegava dois nibus por dia, para ir e voltar da
escola, isso quando um trabalho fora do turno no me
obrigava a tomar o caminho da escola em horrios alternativos.
E como eu torcia para que isso acontecesse.
No nibus fiz muitas e novas amizades. Logo eu
conhecia todos os motoristas e cumprimentava um bom nmero
de trabalhadores e estudantes que, como eu, sacolejavam
pontualmente no coletivo s sete da manh, rumo a seus
destinos.
Conversando com os motoristas aprendi que os nibus
tm seis marchas, que vrios profissionais do volante
apresentam varizes e hemorridas devido ao tempo que passam
sentados e que os bancos com revestimentos plsticos dos veculos
32 33
podiam ser usados como prova contra as companhias de
transporte em aes de danos fsicos e morais, devido s
assaduras que costumavam provocar em seus ocupantes.
Nos nibus aprendi tambm que motoristas e
cobradores, a maioria deles, tm diferentes namoradas nas diferentes
paradas do trajeto. Mas isso no impediu que eu casse de
amores por Rbson, o cobrador bonito como nenhum outro
que, em incontveis viagens de nibus posteriores, cruzou o
meu caminho.
- Posso ficar devendo dez centavos?
A voz dele era um pouco mais fina do que seria de se
esperar para um homem daquele tamanho, mas a entonao
da pergunta tinha qualquer coisa de sensual e misteriosa.
Depois eu veria que o tamanho de Robson era na verdade uma
iluso causada pela cadeira de cobrador que ele ocupava. Mas
a essa altura, sem trocadilhos, eu j estaria completamente
apaixonada.
- Claro, moo. O que so dez centavos, afinal?
Resposta: dez centavos era a quantia que faltava para
completar minha passagem de volta, mas eu conseguiria uma
moeda emprestada com algum colega, se tudo corresse bem.
Aproveitei que agora era credora do cobrador para falar com
ele durante o trajeto inteiro e me informar dos horrios que
fazia, e da vida que levava, e das mulheres que tinha, que ele
jurou no ter. Desci depois de apertar a mo de Rbson, um
tanto pegajosa devido ao ofcio de pegar dinheiros vindos dos
mais diversos bolsos suados e carteiras velhas.
- Amanh pego o nibus no seu horrio para a gente
continuar a conversa.
Na sada do colgio, no tendo conseguido dez centavos
emprestados, s me restou entrar no nibus com o valor da
passagem incompleto e apelar para a compreenso de outro
cobrador, de bigode fino e maus modos.
- Posso ficar devendo dez centavos?
- Mas vocs so folgados, hein?
O cobrador se dirigia a mim, mas falava na primeira
pessoa do plural, como a me culpar por todos os passageiros sem
moeda que j haviam entrado no nibus. Quando desci, ainda
gritou pela janela.
- Se vocs no tm dinheiro, caminhem!
Reencontrar Rbson passou a ser minha misso. Para
cumpri-la, eu iria muitas vezes escola, nas tardes seguintes,
mentindo para minha me sobre trabalhos, estudos e um
fictcio coral, no qual eu jamais seria aceita com minha
desafinao congnita.
Em uma dessas tardes, debruada na roleta, tomei a
iniciativa de convid-lo para um cinema.
- Pode ser na minha folga, na quarta. Mas voc escolhe o
filme, que eu no tenho muita idia para isso.
No pensei em mais nada at a quarta-feira, nem na
prova de fsica que eu teria e que se juntou a meus outros
fracassos estudantis. Velocidade mxima, ases do volante,
Comboio, Se meu fusca falasse. Eu deveria escolher um filme
ligado ao setor automotivo ou Rbson preferiria variar o
assunto? No dia e hora marcados, esperei por ele na frente do
cinema. Em cartaz, Uma linda mulher, sugesto de uma amiga,
Cleidiana, o oposto do ttulo a que assistiramos em seguida.
Quando Rbson chegou, pude ver que tnhamos quase a
mesma altura, mas que minha maior concentrao de massa
fazia com que ele parecesse bem menor. Estranho encontrar
algum longe do seu ambiente natural. Fora da cadeira de
cobrador, Rbson ficava menos altivo e mais comum, a ponto
34 35
de poder, facilmente, ser confundido com um passageiro
qualquer.
Apesar do romantismo do filme, ele no me beijou e
sequer tocou na minha mo. Nos despedimos na porta do
nibus que me levaria para casa.
- Foi timo, corao. Qualquer hora a gente repete a dose.
Foi timo, corao. Desde a experincia com Marcos (ver
em "o defloramento"), essas eram as palavras mais ntimas
jamais ditas por um homem a mim. Mesmo que ele falasse a
uma distncia respeitosa, que tanto podia indicar respeito
quanto repulsa.
Continuamos nos vendo no nibus quase todas as
tardes. E depois de meses de conversas, de cinemas eventuais, de
eu fazer alguns pequenos favores para Rbson, como pagar
contas em lojas do centro da cidade e levar as pulseiras de
prata dele para passar antioxidante em casa, tomei coragem
para dizer.
- Rbson, estou gostando de voc.
Desde a minha primeira declarao de amor para Artur,
meu colega do jardim-de-infncia (ver em "A descoberta"), eu
havia intudo que mulher feia sempre cabe a iniciativa.
O homem opta por manter-se reservado, talvez seu nico
recurso para evitar uma possvel abordagem.
Rbson fingiu contar algumas notas de um real
amarfanhadas e dedicou sua ateno aos passageiros que
acabavam de embarcar. To logo eles passaram pela roleta, voltei
ao assunto.
- Ouviu? Eu estou gostando de voc.
- Me espere s nove no fim da linha. E agora eu preciso
trabalhar.
Eu faria qualquer coisa para estar s nove da noite no
fim da linha. No caso, como minha me me proibia de andar
pela rua depois de escurecer, o que fiz foi sair de casa
escondida, deixando na cama um amontoado de roupas para
simular meu suposto corpo em repouso.
Fui at o fim da linha conversando com Conceio, uma
das poucas cobradoras em atividade naquela companhia de
nibus. Sendo o trajeto longo e o movimento pequeno, pude expr
a ela todos os meus sentimentos e expectativas, e ouvir suas
recomendaes e experincias sobre a conquista de um
homem. Conceio era uma mulher bastante feia, com seu
cabelo comprido e maltratado de evanglica e um sinal no
queixo, de onde um nico e longo fio grisalho se projetava
com firmeza para o infinito. At hoje no lembro de nada
parecido com aquele fio grisalho nos outros sinais que tive a
oportunidade de ver e tocar. O fato que, muito embora sua
aparncia pouco compatvel com a conquista de homens. Conceico
tinha quase trs vezes a minha idade, o que talvez lhe
conferisse certa autoridade para me aconselhar. O diabo sabe
porque velho e no porque diabo, dizia o meu pai.
Certos conselhos de Conceio guardo at hoje, para
usar quando algum moo, ou nem tanto, se atravessa no meu
corao. Mostre-se sempre menos inteligente do que voc ,
por menos inteligente que voc seja. Encante-se com toda
bobagem que ele falar. S d a sua opinio depois de ouvir a
dele. E logicamente que a sua ser a mesma.
Sbia Conceio. No h ser do sexo masculino, ao
menos na espcie humana, que resista a esses mandamentos
da bajulao. Durante a vida e os homens, fui aprendendo que
os efeitos da frmula de Conceio podiam ser
potencializados com risadas entusiasmadas a cada piada ou trocadilho
36 37
proferido. Infelizmente para as mulheres, da natureza do
macho contar piadas em grandes grupos ou na intimidade da
sua casa. Ao menos na espcie humana.
Esperei com ansiedade o nibus de Rbson estacionar
no ptio. Estvamos ali eu e mais quarenta ou cinqenta
funcionrios da empresa, motoristas e cobradores deixando o
trabalho, outros tantos chegando para substitu-los, alm dos
retardatrios da administrao. Rbson surgiu com o cabelo
molhado, a camisa de cobrador dobrada em um saco plstico e
uma camiseta com cheiro de sabo em p usada para dentro
das calas com preguinhas, o cinto imitando couro traado
arrematando o conjunto.
Era o cobrador mais bonito que eu veria na minha vida
inteira.
Ele me convidou para ir na casa de um amigo que morava
perto dali, e eu fui. O amigo, um negro, baixinho e
homossexual apelidado de Minoria saiu para comprar algo ou para
nos deixar a ss, talvez. Rbson tratou de cumprir sua sina em
pleno sof da sala, com uma Nossa Senhora Aparecida feita de
palha nos olhando da estante. Foi mais rpido do que eu
gostaria, talvez pela preocupao dele com a volta de Minoria.
Ficamos em silncio at eu perguntar se Rbson queria
um lanche. Na cozinha pequena e organizada, fritei dois ovos
que ele comeu raspando no prato um po de sanduche que
encontrei na geladeira. Depois Rbson me acompanhou at a
parada e ficamos falando de futebol at que o nibus
aparecesse, ns dois fanticos pelo Inter de Porto Alegre.
- Um dia vou levar voc ao nosso estdio, pequenina.
Palavra do velho Rbson.
Consegui entrar no meu quarto sem ser vista e deitei de
roupa, lembrando cada segundo da noite e cada slaba da
palavra que Rbson escolheu para me acariciar: pe-que-ni-na.
Com exceo do meu av, que me chamava de Gordalhona, era
minha estria no campo das palavras carinhosas usadas como
expresso de tratamento.
Infelizmente, nunca fomos juntos ao Beira-Rio. Nossa
histria durou apenas mais alguns encontros, at Rbson
sugerir que devamos esquecer o que havia acontecido e
retomar nossa amizade.
- Acredite em mim. Vai ser melhor para os dois, pequenina.
Para mim seria melhor continuar como estvamos, mas
no houve argumento que o convencesse. A partir dali, nas
vezes em que me ofereci para acompanh-lo ao apartamento
de Minoria, Rbson sempre recusou. No demorou para que uma
garota qualquer aparecesse debruada na gavetinha em que ele
guardava o dinheiro, espao que eu considerava meu, o que
me obrigou a procurar outro e solitrio lugar para viaj ar.
Terminei gostando daquela garota e das que vieram
depois dela. Se existe coisa que uma mulher feia sabe aceitar
a derrota e reconhecer os mritos da inimiga. Desta forma,
cansei de consolar Rbson quando seus casos chegavam ao
fim e de estimul-lo a novas conquistas no nibus para
recuperar a auto-estima. Quanto a mim, estive com outros
cobradores, conheci alguns motoristas e cheguei a me interessar por
alguns fiscais. Quando tudo terminou, de todos fiquei amiga.
Como s uma mulher feia seria capaz.
4.3. Tiaraju
Perto da minha casa morava uma famlia vinda do
interior, nunca se soube exatamente de onde. Era a famlia Tup.
38 39
O pai no trabalhava e a me costurava para mulheres de
outras freguesias: as vizinhas jamais faziam a ela
encomendas de tnicas ou pantalonas, a moda da poca, embora
soubessem da sua profisso. Moravam em uma casa pequena,
com restos de verde, salmo e branco nas paredes descascadas
e nunca abriam as janelas, qualquer que fosse o tempo do
lado de fora. Chegou-se a comentar, nas conversas sussurradas
das donas de casa na calada, que os Tups estavam ali
escondidos da polcia, fugidos de algum crime cometido pelo pai,
razo das venezianas cerradas e das suas caras, mais
fechadas ainda.
Maior que o mistrio da famlia, s o nmero de filhos:
oito, e todos homens. Os mais moos estudavam no mesmo
colgio pblico em que eu fui tantas vezes reprovada,
das crianas da nossa rua. Segundo contavam essas crianas,
todos pareciam perfeitamente integrados ao ambiente, com
amigos, temas feitos e desempenhos muito melhores do que
eu jamais tive. Eram, no total, cinco filhos freqentando o
colgio, Ubiraj ara, Ubiratan, Tabaj ara, Uirapuru e Ubiraci,
nomes que levavam suspeita de fortes razes tupis-guaranis
na gnese da famlia.
E havia os trs filhos mais velhos, de ocupaes no-
sabidas. Um deles, Peri, saa de casa antes de amanhecer e
voltava no final do dia, para no mais ser visto at o sol nascer
outra vez. Operrio? Enfermeiro? Ambulante? Meliante? Por
mais que especulassem, as donas de casa da nossa rua nunca
encontraram a resposta.
Outro dos rapazes, Sep, aparentava vinte anos e passava
os dias na casa fechada. Quando a trilha da novela das sete
precedia a noite em todos os lares da vizinhana, Sep
cruzava o porto com uma sacola azul nas costas e desaparecia
na direo da avenida que cortava nosso bairro. Enfermeiro?
Guarda-noturno? Msico? Segurana? Transformista? Mais
um mistrio que as donas de casa, curiosas, no conseguiram
desvendar.
prole se completava com o primognito da famlia,
Tiaraju. Baixinho e moreno, com os lbios escuros e os cabelos
longos e engordurados, Tiaraju passava horas interminveis
no jardim malcuidado da casa, desenhando e pintando em
telas e mais telas que, ao escurecer, eram recolhidas pela me
costureira. Para ns, os vizinhos, to importante quanto
saber que mistrios os Tups guardavam, era descobrir onde
eles armazenavam tal quantidade de quadros.
Foi em uma tarde sem aula, em que o estudo que se fazia
necessrio para a prova de qumica da manh seguinte no
foi suficiente para me manter dentro do quarto, que parei em
frente ao jardim decadente dos Tups e fiquei vendo Tiaraju
pintar.
Naquele momento, a triste figura do pintor, com seus
cabelos desgrenhados e um esgar no rosto que lembrava o
eterno sorriso do Charada, inimigo piadista do Batman,
produziu um estranho efeito sobre mim. Eu tinha ento dezoito
anos e contabilizava envolvimentos rpidos com um vizinho,
cobradores e outros trabalhadores do setor dos transportes e,
mais recentemente, com o empacotador do minimercado da
esquina, chamado Joo Luiz, que conheci nas minhas
compras dirias de jujubas.
Seguindo a lgica da mulher feia, fiquei com Joo Luiz
sem ach-lo atraente ou interessante, apenas porque ele
respondeu com simpatia aos meus ois e tchaus. No incio,
conversamos sobre os diferentes tipos de clientes do
estabelecimento e a classificao do campeonato brasileiro, e em breve
40 41
Joo Luiz passou a me acompanhar at a porta, esticando
nossos assuntos por mais alguns instantes. Em seguida, era eu
quem ia encontr-lo nos quinze minutos de folga que a
profisso de empacotador propiciava a cada turno, e que Joo Luiz
gastava em um terreno baldio da vizinhana, fumando os
cigarros que comprava a granel.
O primeiro beijo foi quando me distra observando os
dois dentes escuros e curvos, quase em forma de cimitarras,
que ele apresentava na arcada frontal superior. Enquanto eu
pensava que aqueles dentes seriam capazes de partir o dedo
de algum, Joo Luiz falou, os lbios muito perto dos meus.
- Perdeu alguma coisa na minha boca, Tu? Quer que eu
ajude voc a encontrar?
Foi um beijo bom, principalmente porque ele no fazia a
coisa lambuzando meu rosto inteiro de saliva, como era a
prtica entre os caras que conheci. A partir dali, as folgas de
quinze minutos de Joo Luiz foram divididas entre o fumo e os
beijos, que ele interrompia imediatamente se outro empregado
do minimercado chegasse ao local, com a justificativa de nos
preservar da curiosidade alheia.
- Ningum precisa saber de nada. Se algum perguntar
alguma coisa, negue, Ju. Eu prefiro que o nosso
relacionamento fique apenas entre voc e eu.
Levamos nosso relacionamento, por assim dizer,
durante alguns dias e incontveis beijos, at a mo de Joo Luiz
iniciar a explorao da minha superfcie.
- Nossa me. Aqui tem trabalho para uma semana, s na
parte de reconhecimento do terreno. Sua barriga vai levar uns
dois dias para ser toda acariciada. E a coxa, ento? Para fazer
a volta nela, eu precisaria de vinte e quatro horas, no mnimo.
Eu achava graa do espanto dele com o meu tamanho, e
Joo Luiz se divertia descobrindo pedaos humanos um tanto
fora das propores-padro.
- Isso um seio ou a cabea de um careca? Menina, de
onde voc tirou tanta carne?
Um dia Joo Luiz me levou para trs do muro do terreno
baldio e a explorao deixou de ser superficial. Ficamos nesse
novo formato por algumas semanas at que, em uma quinta-
feira, ele recusou o meu abrao.
- Esto falando da gente no mercado, Tu. No bom para
mim, eu posso at ser demitido. Acho melhor a gente
terminar. No venha mais me encontrar aqui, certo? A gente se v
quando voc for comprar as suas jujubas.
Como havia acontecido em casos pregressos e como eu
confirmaria em experincias posteriores, todo homem que
decide romper com a mulher feia sempre o faz em forma de
monlogo: ele fala sem parar, despejando suas razes para o
fim, como se mulher feia restasse apenas aceitar, sem
contra-argumentao alguma. Com Joo Luiz, eu reagi.
- Voc que pensa que eu vou continuar comprando
naquela espelunca. Prefiro caminhar mais trs quadras e dar
lucro para o Super Moreira. At nunca mais.
Pelo menos, diferentemente da experincia com o meu
vizinho Marcos (ver em "O defloramento"), eu jamais ofereci a
ele minhas jujubas, que eram devoradas quando tudo
terminava e Joo Luiz reassumia seu lugar junto ao caixa. Homens
e jujubas nunca mais se misturaram na minha vida, e talvez
eu possa mesmo dizer que meu prazer sempre foi muito mais
completo com as balas.
42 43
Voltando ao filho mais velho dos Tups,
Tiaraju tentou ignorar minha presena enquanto
pintava mais algumas de suas telas. Apesar do seu, digamos,
ateli deix-lo exposto a olhares e comentrios dos passantes,
certamente ele preferiria a solido para criar.
- O que significa esse desenho?
Minha pergunta ficou vagando pelo ar, entre o barulho
distante das cigarras e o som do radinho de pilha de alguma
empregada domstica. Longe de me desanimar, a indiferena
de Tiaraju despertou em mim uma caracterstica comum a
todas as mulheres feias: a persistncia.
Eu no voltaria para casa antes de falar com ele.
- Onde voc guarda tantas telas?
- Voc nunca vende seus quadros?
(Um avio passa roncando no cu.)
- De onde vem sua inspirao?
- Quando voc compra as telas, se est sempre a, pintando?
- Voc desenha desde pequeno?
(A me de Tiaraju aparece, diz algo no ouvido do filho e
entra em casa.)
- Seus irmos tambm so artistas?
- Voc no cansa nunca?
- Tem telentrega de telas?
- Eu moro aqui perto e sempre vejo voc.
- Que linda! Essa a mais bonita de todas que voc
pintou hoje!
(Um garotinho cai da bicicleta e comea a chorar.)
- Bom, acho que vou fazer um lanche. Amanh eu volto
para ver voc pintar.
- No faa isso.
Aps quatro horas, finalmente Tiaraju rompia seu
silncio para se dirigir a mim, ainda que com a inteno de no
mais faz-lo.
- Demorou, hem? Pensei que voc no fosse me
responder jamais.
Ele largou o pincel no cavalete e abandonou a paleta na
grama maltratada do jardim antes de vir ao meu encontro,
protegido pela cerca de arame esburacada aqui e ali que o
separava da calada.
- Escute, garota...
- Pode me chamar de Ju.
- Eu no quero chamar voc de Ju. Eu no quero chamar
voc de nada. Eu s quero ficar em paz dentro da minha casa.
No volte aqui nunca mais.
Eu havia lido histrias assim milhares de vezes nos
livrecos de papel jornal que minha me comprava nas bancas
de revistas: Julia, Sabrina, Barbara Cartland. Em dezoito anos de
vida, eram toneladas de noveletas devoradas, e no existia
uma sequer em que a herona e seu prncipe no se
antipatizassem primeira vista, sintoma inequvoco de que uma
grande paixo estava por vir. Se Tiaraju em nada lembrava
um prncipe, eu bem podia me candidatar ao posto de herona.
Quatro horas no sol para arrancar poucas e rspidas palavras
de um cara de cabelos ensebados deviam valer alguma coisa
na escala de superao de uma mulher.
44 45
- Olhe, Tiaraju, minha inteno nunca foi atrapalhar a
sua arte. Pinte vontade, eu apenas pretendo observar o seu
trabalho nos prximos meses. E se voc me pedir, prometo
ficar de boca fechada. Mas tem que pedir com educao.
O primognito dos Tups me deu as costas e entrou em
casa. Continuei por mais algum tempo encostada na cerca de
arame, o bastante para ver sua me recolher as muitas telas
pintadas por ele em um dia de pinceladas - e inspiraes -
ininterruptas.
Na tarde seguinte, l estava eu. E na prxima, e na
prxima, e na prxima. To logo terminava de almoar, eu me
fechava no quarto e mudava toda a minha roupa, incluindo a
lingerie. Depois de escovar meus cabelos at deix-los com o
aspecto de um matagal ps-queimado e alisado, passava
perfume, colocava meu batom preferido e saa para dar planto
na frente da casa de Tiaraju. s vezes levava um livro de fsica
ou histria, para minha me pensar que eu estava estudando
para as provas do colgio. Na verdade, os livros serviriam
para que eu sentasse sobre eles, quando minhas pernas no
agentassem mais sustentar um corpo de volumes generosos.
Enquanto durou a Misso Tiaraju, jamais estudei uma lio
e levei bomba em todas as matrias.
Quando Tiaraju j estava to acostumado comigo que,
embora fizesse questo de se mostrar sempre incomodado,
virava as telas propositalmente na minha direo, para exibir
as obras concludas, fiquei trs dias inteiros sem aparecer.
Uma estratgia premeditada. Estava na hora de a minha
presena ser valorizada, e isso s aconteceria com a minha falta.
Um fato da vida que qualquer mulher, independentemente de
ser bonita ou feia, j nasce sabendo.
No quarto dia, me postei junto cerca, como se nunca
tivesse sado de l. Encostado parede de madeira da casa,
sem cavalete, tela ou paleta por perto, Tiaraju me viu chegar e
caminhou para o porto.
- O que aconteceu?
- Cansei de passar tardes inteiras sem falar e levei
minha lngua para se divertir um pouco. S isso.
- Decidi pintar o seu nu inspirado em Botero. Entre e
tire a roupa.
- No posso ficar nua no seu jardim, Tiaraju. Meus
irmos me matariam.
- No vou pintar voc no jardim. Tire a roupa e fique
dentro de casa.
- Mas e a sua famlia? Voc nem me apresentou para
ningum e eu apareo nua na sala?
- Meus irmos esto no quarto, minha me costura na
varanda e ns vamos ficar vontade na rea de servio.
Nunca tive vergonha do meu corpo, embora meus dois
irmos achassem que eu devia ter. Andava apenas de calcinha
ou mesmo despida dentro de casa, at meus peitos crescerem
tanto que se tornou impossvel lavar a loua do almoo sem
que eles mergulhassem na pia cheia de detergente. Foi
quando meu pai pediu que minha me esclarecesse para mim as
diferenas entre meninos e meninas, e ento meu busto foi
encarcerado para toda a eternidade em grandes sutis de bojo
acolchoado que ela mesma comprava, muitas vezes em lojas
de gestantes, para que eu me sentisse mais confortvel.
Agora, quando Tiaraju me pedia para tirar a roupa e ser sua
modelo, isso me soava natural. Imagine o que minhas colegas
magras diriam se soubessem que eu, justo eu, serviria de
modelo para um artista.
46 47
A vingana era um prato que se comia morno,
considerando que ainda ontem eu havia sido chamada de Caminho
de Banha pelas loiras da aula.
Entrei no lar dos Tups provocando um terremoto, menos
pela fora com que eu pisava que pelo mau estado da moradia
de madeira. Ao menos, foi o que eu quis pensar. Por dentro, a
casa era ainda mais malcuidada, com poucos e estragados
mveis, portas e paredes carcomidas, alguns guardanapos
encardidos sobre a mesa, o balco e os encostos ensebados das
poltronas, a televiso de catorze polegadas apoiada em um
caixote e, o mais impressionante, pilhas e pilhas das pinturas
de Tiaraju espalhadas por todos os lugares. No admira que
no se ouvisse um rudo vindo dali. A quantidade absurda de
telas devia funcionar como isolamento acstico, impedindo o
deslocamento do som em qualquer direo ou sentido. E
obrigando os olhos viso permanente de diferentes tintas
jogadas sem critrio algum sobre os quadros assinados pelas
iniciais T. T.
Andando com toda a leveza de que fui capaz, cobri em
poucos passos o caminho at a rea de servio, onde uma tela
em branco esperava para receber minha figura.
- Pode se despir aqui mesmo enquanto eu busco as tintas.
Graas a Deus eu sempre ia ver Tiaraju usando uma lingerie
limpa.
Tirei pea por pea e usei as prprias roupas para
proteger a viso das minhas intimidades. Eu no tinha problema
algum com a nudez, exceto pela possibilidade de o pai de Tiaraju
me surpreender pelada na frente da churrasqueira da famlia.
- Me ajude com o sof!
Tapando o corpo com as roupas ainda quentes, segui
at a sala, onde Tiaraju lutava para empurrar um sof de dois
lugares.
- Em que posio voc planeja me pintar?
- Quero voc recostada, como as vnus renascentistas.
- Ento vamos levar o sof de cinco lugares.
Carreguei o sof maior praticamente sozinha at a rea
de servio. Se em algum momento Tiaraju me olhou de forma
menos profissional, no percebi. Para ele, eu era apenas a
modelo viva, e nua, da vnus que em breve preencheria mais
uma de suas telas.
Ensaiamos diversas posies at chegar ideal. Deitada
de lado no sof, eu devia manter uma das pernas suspensa no
ar, o corpo virado para a frente, a cabea baixa e o nariz
enfiado em uma rosa. Tomara que Tiaraju no levasse anos para
concluir sua obra. Muito antes disso, eu j teria morrido de
cimbra.
- Que formas. Buteru invejaria.
Fomos interrompidos algumas vezes pelos Tups
menores. Os irmos paravam na porta aos cutuces e risadas, at
serem expulsos pelo artista. Tambm o patriarca da famlia
apareceu para admirar o trabalho. Na metade da tarde, o pai
de Tiaraju chegou com uma cadeira de praia e sentou diante de
mim com um chimarro nas mos, como para assistir a um
programa de televiso.
- A moa est servida?
- Agora no, pai. Ela no pode ingerir nada para no
ficar com barriga.
- Voc quer dizer com mais barriga, filho?
48 49
O velho continuou dando palpites sobre a pintura e o
meu corpo, at Tiaraju largar o pincel, a noite j aparecendo
sobre nossas cabeas.
- Amanh terminamos. Pode se vestir.
Deixei a casa ao mesmo tempo que Peri, um dos irmos,
voltava da rua, e Sep, outro dos rapazes, saa para suas
suspeitas ocupaes noturnas. Mais alguns dias naquela casa e
eu contaria, com exclusividade para toda a vizinhana, tudo
sobre a histria e os mistrios dos Tups.
Na tarde seguinte, no esperei a ordem de Tiaraju para me
despir. O sof havia retornado ao seu canto na sala, de forma
que o carregamos novamente, eu nua e fazendo mais fora que
o pintor. Um estranho silncio ocupava o ambiente.
- Meus pais, os garotos, todos saram. S Sep dorme no
quarto.
A tarde passou rpida, meus msculos aos poucos se
acostumando a ficar imveis por horas seguidas enquanto
Tiaraju nos imortalizava. Uma eternidade depois, o barulho
na porta denunciou a sada de Sep. Foi o sinal para Tiaraju
largar o trabalho e sentar ao meu lado, acariciando meus
cabelos secos e duros.
- Os artistas precisam ser fortes, sabia?
- Por qu, Tiaraju?
- Para no confundir inspirao e criao. Para no agir
com as fraquezas do homem diante do belo... No exatamente
do belo... Para no sucumbir ao... peculiar.
Ele me chamou de peculiar, e no deixava de ser um
elogio para quem estava acostumada a atender por ltimo Mamute,
Tribufu Master e Supercanho. Logo a boca escura de Tiaraju
passeava vontade pelo meu corpo, fazendo-o perder o flego
por algumas vezes. Nesses momentos, ele parava, tomava ar e
desculpava seu orgulho de macho.
- Voc entende... Eu precisaria ser um maratonista para
vencer essas distncias..
No posso dizer que Tiaraju tenha abusado de mim. Eu
comecei tudo quando resolvi observ-lo sem motivo algum, e
se agora me via nua no sof da famlia Tup, no havia sido
forada a isso. Meu arrependimento foi apenas por no ter
sentido absolutamente nada, enquanto ele resfo legava e
balanava seus cabelos engordurados de um lado para o outro.
Ao final do dito ato, Tiaraju, que desempenhou suas
funes vestido, levantou ofegante e continuou a pintura.
Retomei minha posio de modelo e nenhum de ns falou, at o
grito que me despertou da letargia, ou talvez de um cochilo.
- Parla!
Corri para ver a obra concluda.
- E ento? Botero no chegaria aos meus ps!
A tela mostrava uma mulher muito gorda e muito
branca, com as pernas abertas o bastante para que os apreciadores
da arte virassem, tambm, expert em anatomia. Se no
reconheci meu corpo naquele exagero de carnes e peles, muito
menos identifiquei meu rosto.
- que achei melhor pintar a face de mame Pela
harmonia do trabalho, entende?
Pelos planos dele, aquele seria apenas o incio de uma
grande srie de nus meus. Disse que no estava interessada
em tamanha glria e pedi a Tiaraju que destrusse a tela
imediatamente.
50 51
- Se meus irmos sonharem com isso, eu sou uma
mulher morta.
- A verdadeira arte sempre teve seus martires.
- Voc prefere que eu seja assassinada a dar um fim a
esse lixo?
- A verdadeira arte sempre foi incompreendida.
- Pois saiba que meus irmos podem acabar com voc
tambm.
- Seus dois irmos? Aqui em casa somos oito. A tela se
manter intacta esperando para ser exposta.
Sa da casa dos Tups sem descobrir nenhum dos seus
segredos, alm da falta de talento de Tiaraju. Para as
belas-artes e para o sexo.
Mais tarde, perguntei a meu pai sobre Botero. Um grande
pintor colombiano que retratava obesas, ele respondeu.
Pesquisando na biblioteca do colgio, descobri que o tal Botero
deveria ganhar uma esttua do Greenpeace, tal a quantidade
de baleias que imortalizou.
No passei mais pelo jardim decadente dos Tups, mas
soube, pelas conversas com as vizinhas, que seu filho mais
velho continuava L, pintando compulsivamente. Daria
continuidade srie de nus iniciada comigo?
Vivi algum tempo assombrada pela possibilidade de
uma futura exposio de Tiaraju. Durante vrias noites, tive
pesadelos em que o autor e sua criao apareciam nas
primeiras pginas dos jornais, os reprteres querendo mais detalhes
sobre a gorda retratada ali.
Minha ignorncia sobre o assunto me levava a pensar
que sua obra jamais seria aceita em uma galeria, mas isso no
foi o bastante para me tranqilizar.
A verdadeira arte sempre uma incgnita.
4.4. Augusto
Tudo na minha prima Bela Costa Pinto era falso, do
vermelho do cabelo bolsa louis Vitton de camel. Sem falar na
idade, que ela sempre diminua. Ainda assim, meu tambm
primo Augusto Fagundes Pinto acreditou quando, na
primeira vez em que dormiu na cama dele. Bela disse que
nenhum outro cara no mundo havia conseguido deix-la
daquele jeito.
- De que jeito?
- Como se um caminho de lixo tivesse me atropelado,
s que sem doer.
No era uma imagem muito romntica, mas Augusto
ficou lisonjeado, de qualquer forma. ramos todos primos, Bela
era famosa na famlia pela quantidade de namorados ao longo da
vida, sempre citada quando as cunhadas e as tias-avs
precisavam de algum parmetro para falar de outra mulher.
- Essa j deu muito por a. Mas no tanto quanto a Bela.
Desde criana fui fascinada pela beleza e pelo sucesso da
minha prima. Supondo que naquele tempo eu no fosse feia,
como acredito que no era, embora o restante da humanidade
no compartilhasse da minha opinio, ainda assim Bela era
muito mais luminosa e viva e encantadora, a primeira no afeto
dos avs e na ateno dos tios. Impossvel para uma garota sem
grandes qualidades, e nenhuma aparente, concorrer com ela.
Bela j existia quando Augusto e eu nascemos, o que no
combinava com sua verso a respeito da prpria histria.
- Lembra quando voc me ensinou a amarrar os tnis,
Augusto? Voc devia estar na segunda srie e eu, nossa, eu
nem sabia andar direito. E quando aprendi com voc a pintar
as unhas, Ju? Muito do que sou hoje devo a voc, sabia?
52 53
Nas minhas recordaes, Bela aparecia de sapatos
brancos e cabelo castanho, muito diferente do ruivo atual,
apontada por todos como a mocinha da famlia. Eu devia ter ento
cinco ou seis anos. Antes disso, minha mente era uma
nebulosa engolindo os beijos da me, todos os aniversrios e as
possveis bonecas de pano da primeira infncia. Passei por
aquela fase sem registrar nada, ao contrrio do meu irmo
mais velho, Everton, que afirmava lembrar de cada relao
sexual do pai com a me grvida.
- Eu sentia o troo do velho na minha orelha esquerda,
cara. Foi um milagre ele no ter me rompido o tmpano.
Bela foi a prima gostosa sempre presente nos sonhos de
meus irmos Everton e Emerson, na cabea dos primos Dinho,
David, Jnior e Samuei, nos maus pensamentos dos tios Ivan
e Paulo e nos desejos de inmeros parentes masculinos
distantes, que comearam a freqentar as festas ntimas dos
Costas Pintos assim que a garota botou peito. Quanto a mim,
lembro apenas de Robertinho, filho do segundo casamento de
minha tia Marlene, contando ter sonhado comigo.
- No comeo pensei que fosse a Mulher-Gorila em uma
jaula, mas ento reconheci voc.
Cresci apaixonada por Augusto, que cresceu me
ignorando. Como eu, tambm ele se criou ouvindo que Bela j
tinha estado com boa parte dos homens da famlia. At que
um dia virou alvo das atenes da prima.
- Pode espalhar o protetor nas minhas costas?
Enquanto todos comemoravam, de roupa, os noventa e
nove anos da bisav Margareth, Bela exibia um biquni quase
imperceptvel para tomar o sol fraco de agosto no jardim da
matriarca. A bisav, com seus olhos turvos pela catarata,
provavelmente enxergava a bisneta nua sobre o colcho de ar em
forma de lngua, presente em conjunto dos netos mais moos
que revoltou a aniversariante.
- Um colcho de lngua. Isso uma famlia ou uma
conveno de porngrafos?
O fato que Augusto aplicou o protetor nas costas de
Bela e depois levou a tarde reaplicando o creme, cada vez que
a prima suava ou mudava de posio no colcho. Quando a
comemorao do quase centenrio da bisav chegou ao fim,
mais de dez da noite, Bela pediu para tomar banho no
apartamento dele, onde os dois passaram os trs dias seguintes
levantando da cama apenas para ir ao banheiro ou receber o
entregador de pizza.
Ela com a sensao de ter sido atropelada por um
caminho de lixo.
A primeira reao foi a de Slvia, minha tia e me de Augusto.
- Eu no acredito que voc tambm vai cair na conversa
dessa sujeitinha. J no bastava o seu pai?
Tia Slvia ento falou de um suposto envolvimento do
marido com Bela, num vero em que o trabalho exigiu a
presena dele na cidade. O romance teria durado alguns meses e
foi dedurado por um conselho de parentes especialmente
constitudo para essa misso.
- Queriam denunciar seu pai ao Juizado de Menores. Eu
no deixei, mas tambm no perdoei.
Depois tia Slvia falou de outros Pintos seduzidos por
Bela, e cogitou, chorando, a hiptese da influncia de tal
sobrenome no destino da famlia: dois irmos ao mesmo
tempo, todos os pberes e adolescentes, o companheiro da
54 55
trs vezes viva tia Eva, o primo que a maioria julgava veado,
o tio e padrinho Adalberto, irmo gmeo do pai de Bela.
- E qual o problema, me? A Bela estava apenas se
preparando para mim.
Coube a mim o papel tradicionalmente reservado s
mulheres feias: o de confidente. Procurei Augusto com a
inteno de abrir-lhe os olhos sobre a conduta da prima Bela.
Mas, nem bem comecei, ele desabafou nos meus ouvidos toda
a sua mgoa com a incompreenso e o julgamento leviano dos
pais a respeito da namorada.
- preconceito, Ju. Essa histria mostra como a
sociedade v a fmea. Basta que ela no seja submissa e lute pelos
seus desejos, e pronto. Na mesma hora tachada de puta. S
que o que eu sinto por Bela muito maior que
qualquer conveno. Quanto mais atacarem a mulher que eu escolhi, mais
eu vou estar aqui para am-la.
Para sermos fiis verdade, Augusto que tinha sido
escolhido por Bela, como tantos foram antes dele e tantos
seriam depois. Mas meu primo estava gostando de interpretar
aquela espcie de Romeu dos anos oitenta e, por ingenuidade
ou romantismo, na prtica a mesma coisa, via seus
sentimentos aumentarem a cada novo golpe contra a honra de Bela.
Honra, neste caso, uma evidente fora de expresso.
- Conto com voc para defender a Bela, Ju. S o corao
de algum sem vaidade alguma, como voc, pode ser meu
aliado nesta batalha. Voc fica do meu lado?
caracterstica da mulher feia se irmanar dor de
terceiros, de forma que sa da conversa com Augusto
transformada em uma guardi da virtude de Bela. E se, por felicidade
ou milagre, um dia meu primo resolvesse enxergar a verdade,
eu, a pessoa que mais o compreendia no mundo, estaria
esperando por ele.
O affair de Augusto e Bela logo ficou maior que a casa dos
Fagundes Pintos e se espalhou pela famlia. J no lado dos Costas
Pintos, houve apenas o silncio. O pai de Bela, com histrico de
duas cirurgias para colocao de pontes de safena, preferiu se
manter alheio ao assunto. A me da garota, ocupada com suas
jogatinas pelos bingos da cidade, s se preocupou com a
ascendncia do novo genro.
- Agente sempre quer algum de famlia boa para a filha.
O casamento aconteceu menos de um ano aps a festa
dos noventa e nove anos da bisav Margareth, que faltou
cerimnia por estar ligada a tubos na cama de uma clnica
geritrica. A famlia, que havia jurado no comparecer, lotou
a igreja, onde Bela entrou de vestido rosa, sob a aprovao das
mais velhas das mulheres presentes.
- Pelo menos isso. S faltava a sem-vergonha casar de
branco.
Confirmando os prognsticos de uma unio breve,
Augusto e Bela ficaram poucos meses casados. Para desgosto
da me dele, at hoje doda com o engano do filho, o ex-casal
continua se encontrando ocasionalmente, entre uma e outra
aventura de Bela com um tio-av ou o novo concunhado de
algum Pinto. Como fez desde o incio, Augusto ignora a
choradeira da me. E jamais aceitou meus convites para discutir a
relao deles em um bar na sexta noite, ou em uma boate no
sbado, ou em um cinema no domingo.
- Voc como uma irm para mim, Ju. Melhor ainda: um
irmo. Um camarada a quem eu posso confiar tudo. S que eu
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no tenho vontade de danar com um camarada meu. Voc
entende, no ?
Tudo em Bela podia ser falso, do cabelo agora
loiro-acinzentado aos culos Armani comprados em uma loja de
coreanos do centro da cidade, mas a sensao dela de ser
atropelada por um caminho de lixo sempre que os dois ficam
juntos, nessa Augusto, pelo jeito, continua encontrando todos
os motivos para acreditar.
4.5. Otelo
Eu j dividia um apartamento de um quarto com minha
amiga Catilene quando reencontrei Otelo, colega que me
acompanhou durante boa parte do colgio, no tempo em que a
minha mdia era repetir pelo menos uma vez cada srie. E a
dele tambm.
Essa coincidncia, ou burrice, como queria a diretora da
escola, uma mulher feia e murcha chamada professora
Escolstica, nome que deve ter sido fundamental para definir seu
destino, acabou me aproximando de Otelo. Enquanto turmas
inteiras trocavam as Capitanias Hereditrias pela Revoluo
Francesa, Otelo e eu continuvamos estudando Mem de S e
Tom de Souza, entre muitos outros pequenos personagens
da nossa histria que jamais consegui aprender.
Eu podia definir Otelo em uma palavra: feio. Magro, alto,
parecia no ter msculo algum embaixo da pele. Foi o magro
mais flcido que conheci, o pouco de carne que cobria seus
ossos balanando frouxa quando ele corria nas aulas de
educao fsica. O rosto de Otelo tambm no apresentava
qualquer atrativo, sendo apenas o conjunto, utilitrio, de dois
olhos, uma boca e um nariz. rgos feitos para cumprir suas
funes sem serem percebidos na vida.
Quando finalmente terminei o colgio, Otelo trabalhava
como office.boy no escritrio de advocacia de um amigo da
sua famlia. E alguns anos depois, quando nos avistamos no
centro da cidade, eu levando o certificado de aprovao do
meu curso de computao, ele carregando uma pasta de couro
imponente, marrom com cantos de metal dourado, no tive
dvidas de que Otelo j era, no mnimo, scio do tal escritrio.
- No, no. Continuei boy. Gostei e decidi ficar na carreira.
Eu havia sido admitida no consultrio de uma dentista
especializada em atender crianas, e minha funo era levar
mordidas dos pequenos pacientes enquanto tentava
segurar suas bocas para a doutora Suzane - este era o nome dela -,
aplicar flor, consertar cries, extrair dentes-de-leite e outras
prticas da odontopediatria. Foi a prpria doutora Suzane,
sempre bonita com seus cabelos negros e dentes mais brancos
que o jaleco que usava, que me aconselhou a fazer o curso de
computao.
- Voc precisa pensar no seu futuro, Ju. Continue sendo
minha secretria, mas estude alguma coisa. E agora, por
favor, lave seu polegar, que ele est sangrando.
No fosse pelos pacientes que quase arrancavam meus
dedos com seus caninos esburacados, teria continuado para
sempre com a doutora Suzane. Alm de gostar da dentista,
ainda devia a ela, tanto moral quanto financeiramente, o
conserto de inmeras cries provocadas pelo consumo de quilos e
quilos e quilos de jujubas aucaradas, e seus resqucios mal-
escovados. Onze cries, para ser mais exata, sem contar os
tratamentos de canal que um amigo da doutora Suzane fazia
na minha boca mediante pagamento parcelado, dez vezes
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para cada dente. Pelos meus clculos, eu j estaria usando
dentadura quando terminasse de pag-lo. Minhas ligaes
com a odontologia me levaram a considerar a hiptese de
prestar vestibular para a rea, mas meus neurnios
naturalmente desanimados desistiram diante das dificuldades do
caminho. Ento, entre datilografia, manicure e computao,
os trs cursos que selecionei em um folheto do Senac, acabei
me decidindo pelo ltimo. Com o apoio do meu pai.
- a profisso do futuro. O pas precisa de craques na
informtica.
No me tornei, absolutamente, o Pel do computador. Mas
assim que peguei meu diploma, passei a procurar empregos na
minha rea e oh, como era bom pensar que eu tinha, afinal, uma.
Era isso que fazia no dia em que reencontrei Otelo.
- Vamos tomar um caf. Eu pago com meu vale-refeio.
Otelo continuava to feio quanto antes. Tinha
engordado alguns quilos, que no fizeram muita diferena no seu
aspecto geral, e continuava o mesmo camarada compreensivo
e gentil de quando tentvamos, em vo, nos consolar por mais
um ano escolar perdido.
- No chore, Ju. Ns ainda temos a vida toda para passar
nessa oitava srie de merda.
Terminado o caf e o tempo de que ele dispunha antes
que os bancos fechassem, combinamos um jantar no meu
apartamento na prxima vez em que Catilene viajasse para
visitar os pais, no interior de Santa Catarina.
- Me convide mesmo. Eu levo um champanhe que
ganhei de Amigo Secreto.
No pensei mais em Otelo at Catilene aparecer de sada para
a rodoviria, rumo ao aniversrio da me.
- No esquea de fechar as janelas, trancar a porta e,
principalmente, no bote homem para dentro de casa. At
segunda.
O problema de morar com Catilene que ela era a dona
do apartamento e se comportava como tal. A televiso ficava
sempre no canal que ela gostava de assistir, o chuveiro
eltrico no podia sair jamais da regulagem estabelecida por ela,
eu ficava terminantemente proibida de tocar nos produtos
com que ela abastecia a geladeira, no se admitiam pingos de
gua no espelho da pia e no cho do banheiro e o seu Dnis,
zelador do prdio, era o nico homem com entrada permitida
em nosso santurio, ainda assim para trocar o gs ou fazer
algum conserto. Eu, que achava quase insuportvel conviver
com as ordens do meu pai, as manias da minha me e as
implicncias de meus dois irmos, vivia agora subjugada pelas
vontades e as neuroses de Catilene.
Mudar dali era uma das minhas prioridades, e para isso
eu procurava um bom emprego na rea de informtica.
Consciente de estar desrespeitando a regra mxima, liguei
para Otelo marcando nosso jantar para aquela mesma noite.
- Venha s oito e diga para o zelador que voc meu
irmo. Minha amiga no quer que eu receba caras estranhos
aqui.
Antes das sete horas, quando eu ainda no havia tomado
banho ou arrumado a sala, seu Dnis avisou, pelo porteiro
eletrnico, que meu irmo estava subindo.
- Voc veio cedo demais.
- que vim fazer uma entrega aqui perto e aproveitei
para subir. Uma passagem de nibus a menos...
Quando vim arrumada do quarto, ele j havia separado
na geladeira os ingredientes para o nosso jantar.
60 61
- Tire as mos da, essas coisas so propriedade da
Catilene. Vamos ao mercadinho comprar o que precisamos. Se
voc trouxe o champanhe, coloque para gelar.
- Esqueci, mas pode deixar que pego umas cervejas no
mercado.
Voltamos para casa com um quilo de massa, atum,
quatro latas de cerveja e um p para fazer pudim de caramelo que
ficava pronto em quinze minutos. As habilidades de Otelo na
cozinha eram to precrias quanto as minhas, mas o jantar
ficou relativamente saboroso e no deixamos sequer um
penne no prato. A propsito desse tipo de massa, Otelo fez
uma observao.
- Um conselho para voc, Ju. Indo a um restaurante
italiano com um acompanhante, e ao pedir ambos pratos com
penne, jamais diga: garom, traga-nos dois pennes. Entendeu?
- Vamos lavar a loua. Catilene detesta cozinha bagunada.
- Tem certeza que no era melhor viver com a sua famlia?
Talvez fosse, mas eu sonhava em morar longe das ordens
e da rotina que me acompanhavam desde que nasci, e no era
todo dia que a oportunidade se apresentava. O fato de
encontrar novas ordens e uma nova rotina definitivamente no
pesou, quando aceitei dividir o apartamento com Catilene:
- Voc paga metade da luz, gua e condomnio, e dorme
na sala. Ligaes telefnicas, s com a minha autorizao.
Cada uma compra sua prpria comida. Voc guarda suas
coisas na porta da geladeira. Entendido?
Se eu esperava que minha famlia promovesse um novo
Dia do Fico quando dei a notcia da minha partida, fiquei
decepcionada.
- Srio? A partir de hoje, seu quarto meu.
Everton interessado no meu esplio, Emerson que
pareceu no ter ouvido, minha me dizendo que seria bom para o
meu crescimento e meu pai recitando uma das frases de efeito
moral que fazia na hora, para todo tipo de ocasio.
- O importante levar junto com voc a educao que
lhe demos.
E assim eu fui morar com Catilene.
Depois de saldar meus dbitos com a moradia, pouco
sobrava do salrio que a doutora Suzane me pagava. Cansei
de dormir com a sensao de que meu estmago se
autodevorava, tais os barulhos que fazia. Sempre que possvel visitava
meus pais, mais por amor ao almoo que a eles. Muitas foram
as noites em que sonhei me saciar na geladeira abarrotada de
alimentos com o nome de Catilene, mas preferi a fome a
enfrentar a fria dela.
Agora, o jantar em processo de digesto estufava meu
aparelho digestivo, esquentando o corpo inteiro. Fui obrigada
a deixar Otelo tirar os pratos e lavar a loua sozinho. Aps
tanta massa, tudo que eu conseguia era ficar estirada no
tapete da sala, os ps jogados sobre uma mesinha de centro
com tampo de vidro.
Otelo veio da cozinha com um prato transbordando de
pudim de caramelo ainda quente. Quando terminei, me senti
como uma jibia que tivesse devorado um pudim quente de
elefante. Eu j no era capaz de mexer sequer os olhos.
- Voc fica linda depois de uma boa refeico.
Otelo sentou no cho e ficou acariciando meu p. As
ccegas que eu sentia se misturaram ao torpor que dominava
meu corpo inteiro, e eu no conseguia pedir a ele que
parasse. Minha me sempre disse que eu morreria de
congesto se continuasse comendo demais. Ser que a profecia ia se
62 63
concretizar justo na primeira noite em que eu recebia um
homem na minha nova casa?
Felizmente os dedos de Otelo subiram do p para a
minha barriga, respeitosamente, sem se deter em recanto
algum. Eu estava bastante gordinha nessa poca e Otelo
pareceu encantado com a quantidade e a textura das carnes que
encontrou.
- Aqui tem diverso para uma dcada.
Apesar da minha quase congesto, Otelo e eu passamos a
noite no quarto de Catilene. Na manh seguinte, quando ele foi
embora, lavei com cuidado os lenis e coloquei de volta na
cama de solteiro todos os ursinhos de petcia que
testemunharam nosso encontro. Uma sorte a cama, em que eu mal cabia
sozinha, no ter quebrado com tantas evolues e movimentos.
Catilene no desconfiou de nada e eu continuei
encontrando Otelo todos os dias, at que ele me pediu em namoro.
O primeiro pedido de namoro de minha vida, que eu aceitei
cheia de orgulho da minha capacidade de conquistar um
homem.
Vivi com Otelo uma existncia pacfica e at mesmo
feliz. amos ao cinema, a lanchonetes, a parques e s
respectivas casas de nossas famlias. Apresentei Otelo a meus pais
e logo ele estava vendo televiso e freqentando os almoos e
jantares dos Costas. Sua me, viva, me recebeu bem, embora
com observaes no muito gentis sobre o meu tamanho e
peso.
- Demorou, mas quando arranjou namorada, o Otelo
quis uma que valesse por duas.
Ou ento:
- O Otelo pode trocar a Ju por duas de quarenta. Quilos,
bem entendido.
E mais.
- Fiquem para o jantar, queridos. Onde comem seis,
come a Ju.
Otelo, filho nico de me viva, achava graa nas
brincadeiras da velha, e quem presenciasse as piadas - vizinhos,
tias em visita, a vendedora de produtos de beleza em
domiclio e meus prprios parentes -, tambm. Freqentemente
dona Matilda, como se chamava minha sogra, convidava
minha famlia para jantar na casa dela, convocando os
comensais sempre da mesma forma:
- Vamos nos servir antes da Ju ou vai faltar estrogonofe!
No dia em que reclamei das grosserias de sua me, Otelo
levantou e me deixou sozinha em um restaurante, com dois o
la minuta na frente. Para no desperdiar comida, dei fim
aos dois pratos. Ele demorou setenta e duas horas para me
ligar de volta, propondo um cinema para a noite. Aceitei e foi
ento que Otelo comeou a justificar seu nome:
- Trs dias sem namorado por perto. Aposto que voc
deu bola para todos os homens do seu trabalho.
Os homens do meu trabalho choravam ao me ver e me
mordiam com voracidade. Seria interessante, se a mdia de
idade deles no fosse de seis anos, no consultrio da doutora
Suzane.
- E esse decote? Quer que os caras se joguem para dentro
da sua blusa?
Por coincidncia ou premonio, dona Matilda batizou
de Otelo o homem mais ciumento que eu jamais conheci. Tal o
personagem de Shakespeare, o meu Otelo se debatia em
dvidas e suspeitas e, quanto mais o tempo passava, mais
desconfiava de estar sendo trado por mim, ainda que isso no fosse
absolutamente verdade.
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- J disse a voc que me atrasei porque a doutora Suzane
teve uma emergncia, um menino que quebrou quatro dentes,
mas que mordia meus dedos como se tivesse oito a mais. Veja
as marcas aqui. Por pouco no precisei levar pontos.
Minha me era da opinio de que cime prova de amor,
e que eu devia ficar feliz com as reaes de Otelo. Catilene,
que me viu chorando vrias vezes por causa das nossas
brigas, achava que eu devia romper o namoro imediatamente,
para ensinar Otelo a respeitar as mulheres. O problema que
eu no queria vingar toda uma espcie. Minha nica vontade
era faz-lo entender que eu era fiel, sim, como toda
apaixonada. Ou talvez apaixonada no fosse o termo mais fiel para
definir meus sentimentos por Otelo.
Eu era uma mulher feia, com todas as inseguranas e a
solido que minha condio trazia. E antes disso, eu era uma
mulher, com todas as inseguranas e a solido que essa
condio trazia. J tinha visto muitas garotas bonitas sofrendo na
mo dos seus namorados sem abandon-los, possivelmente
por medo de no conseguirem companhia para o prximo
sbado. Comparada com a delas, minha situao era muito
mais grave. Otelo havia sido o nico cara a se interessar por
mim nos meus ltimos vinte e trs anos, o nico que se disps
a andar abraado comigo na rua, na frente de quem quer que
fosse, e que julgava possvel que eu fosse tra-lo a qualquer
instante. Se o deixasse, eu no teria realmente com quem sair
no prximo sbado. E em todos os outros.
Ento, o cime de Otelo comeou a passar dos limites.
Em um domingo que Catilene no estava em casa, ele
bateu na minha porta disposto a escolher as roupas que eu
usaria dali em diante.
- Camiseta sem manga, no. Prefiro que voc preserve
seus braos. Vestido, desaconselhvel. A mulher fica mais
protegida de cala comprida. Decotes, o seu prprio bom
senso deveria vetar. Bermudas ficam, no vamos dizer
proibidas, mas suspensas.
No existia gordinha sem bermudas, e eu no seria a
primeira. Me opus aos desmandos de Otelo, que, depois de
alguns gritos, saiu batendo a porta e atraindo a ateno do
sndico. S faltava Catilene ficar sabendo que eu recebia um
homem descontrolado no apartamento enquanto ela
estudava suas lies de pedagogia.
Chorei tanto que, na manh seguinte, me senti mais magra
ao colocar minha cala jeans. Cala no, pensei. Vou vestir uma
bermuda, pea exemplar do ndex de Otelo. Ele no havia dito,
mas imaginei que contrari-lo significaria nosso rompimento.
Ainda assim, arrisquei. Eu era uma mulher feia e no uma
ratazana, daquelas que um dia dissequei nas aulas de biologia.
A caminho do trabalho, eu enxergava Otelo em cada
office-boy. Ele era mais velho que a mdia, verdade, com
alguns fios brancos precocemente despontando da cabeleira
marrom, mas ainda assim eu o via em adolescentes, punks,
orientais, negros e nas raras garotas que passavam com
pastas estourando de contas a pagar e firmas a reconhecer.
Estive distrada e triste durante o dia inteiro, a ponto de no me
importar com as dentadas dos pequenos pacientes da
doutora Suzane. Nada que se comparasse dor do meu corao
mastigado.
Otelo no me procurou por outros trs dias at ligar, na
noite de quinta-feira.
- Vamos jantar na casa da mame. V at o centro e eu
encontro voc.
66 67
Vesti minha melhor cala jeans com uma camiseta da
Penlope Charmosa que eu s usava em ocasies especiais.
Era engraado ver a Penlope mais gorda, esticada sobre os
meus peitos. Otelo elogiou minha aparncia e mais no disse,
at chegar casa da me.
- Que surpresa, queridos. Se eu soubesse que a Ju vinha,
teria me prevenido com um rancho.
Comi pouco e falei menos ainda, enquanto Otelo e dona
Matilda relembravam, pela centsima vez na minha presena,
as frases e brincadeiras do beb Otelo.
- Ele no conseguia falar "mame" de jeito nenhum! Ele
me chamava de "nane"! No engraadssimo, Ju?
Quando ela ia comear o milsimo relato sobre os
primeiros passos do pequeno Otelo, aleguei uma dor de
estmago fulminante e pedi para ser levada para casa. Dona
Matilda reagiu com sua tradicional delicadeza:
-Voc renegando comida? S podia ser doena.
Na porta do nibus, no permiti que Otelo me beijasse a
boca.
- Voc quer terminar comigo, Ju?
Ento eu pensei nos prs e nos contras do nosso namoro.
Os prs: a vontade dele de estar comigo, os elogios que me fazia,
as intenes srias que demonstrava, nossas idas a cinemas, os
jantares, os passeios em geral e os planos de fazer o que
fazamos de vez em quando na cama de Catilene todas as noites, com
a mesma vontade, mesmo depois de trinta anos de casados. Os
contras: o cime, a me piadista, a lista de roupas proibidas.
No era to ruim assim, considerando o que eu perderia.
- Se voc terminar comigo, eu me mato.
- Srio?
No vou dizer que terminei para ver se Otelo realmente
se suicidaria em minha homenagem, mas durante duas
semanas comprei o jornal todas as manhs para ver se ele havia
cumprido a promessa.
E ele no cumpriu.
4.6. Annimo Um
Era um domingo como todos, com a vizinha de cima
batendo seus saltos altos na minha cabea desde s oito da
manh e nada para comer em casa. Eu havia trabalhado at
tarde dia aps dia da semana, e os planos de passar no
supermercado para encher o carrinho com as porcarias mais
engordantes da indstria alimentcia ficaram apenas na minha
vontade. Chocolates, cada pedacinho derretendo na boca e
colando para sempre na bunda. Sucrilhos, o que de mais
prximo da rao para animais o homem desenvolveu para o
homem. Massas italianas de grano duro para comer com
molhos de muitos queijos e calorias incalculveis.
Refrigerantes e sucos base de toneladas de acar, ainda assim muito
mais saudveis que os adoados com aspartame, sacarina
sdica e demais bombas da indstria diet. Bolos prontos com
recheios cremosos de sabores falsos: morango, abacaxi,
laranja ou qualquer outra enganao aromatiza da. Tujubas,
sempre elas, daquelas que grudam nos dentes e fazem a
alegria dos dentistas. Pensar em tudo o que eu no tinha na
geladeira aumentava minha irritao com o barulho do andar de
cima. Agentei at as onze sob as cobertas e os saltos da
vizinha e ento fui em busca do consolo que s gndolas e
prateleiras estourando de doces, pes e biscoitos poderiam me trazer.
68 69
O supermercado mais prximo ficava dentro de um
shopping. Comprei muito mais do que eu poderia consumir,
pagando com um cheque j afogado nos juros do especial. Foi
um verdadeiro milagre um alarme no tocar no momento em
que a caixa o apanhou da minha mo.
O vaivm para esvaziar o txi e levar todas as sacolas
pela escada me fez adiar a volta para casa. Era quase uma da
tarde de domingo e a praa de alimentao do shopping
chamava os famintos, o cheiro de fritura fazendo meu estmago
procurar inutilmente o que h muito no existia nele. Bife
duro ao molho de nata com gosto de gordura e uma montanha
de arroz e batata palha para acompanhar. S de pensar nisso
meu corao ficava to eufrico quanto meu aparelho
digestivo. Deixei o carrinho estacionado em um canto do
supermercado e fui almoar.
Como eu previa, o bife exigiu um esforo extra da minha
mastigao. Se tivesse levado adiante meus planos juvenis de
cursar veterinria, provvel que eu agora soubesse todos os
nomes dos nervos que inutilmente tentava triturar. Chegava
a gastar doze minutos com um mesmo pedao de bife na boca
e, na falta de ocupao melhor durante tal atividade, me
dediquei a observar os outros clientes espalhados pelas mesas do
shopping.
Mulheres feias em bandos. Como elas andam em bandos,
meu Deus. E como parecem solitrias assim, em seus
programas de amigas, juntas apenas - eu seria capaz de apostar -
porque nenhum homem as quis neste domingo.
Qualquer semelhana com o meu caso no ser
analisada aqui.
Famlias. Sempre so muitas no shopping, em horrios
de almoo. Me detenho nos pais barrigudos, nas mes com
seus cheiros fortes de perfume, nas crianas, em nmero
grande demais at para um pas com grandes extenses
despovoadas, como o nosso, e me fixo em um menino de terno,
parecido com o do pai ou, pela idade, av, que o acompanha
em uma pizza.
Poucas coisas so to tristes na vida quanto um menino
de terno.
Quando o garoto vai embora, levado pelo pai ou av, noto
um homem de seus cinqenta anos, com aspecto de pai
de famlia, s que sem famlia, almoando em uma mesa de
canto. O que faz um sujeito que com certeza tem filhos j
adultos, adolescentes e quem sabe at um temporo de seus oito
ou nove anos almoando sozinho em um domingo?
Decido fazer do homem meu novo objeto de
investigao, mesmo vendo que sua bandeja est quase vazia e logo ele
ir embora tambm. No meu prato, quase meio bife e muitos
minutos a mais de mastigao paciente para terminar a
refeio, O homem no pode ir embora, no enquanto eu no
engolir todos os nervos que me restam. Esqueo a educao e passo
a encar-lo, um amontoado de fibras endurecidas indo e vindo
na minha boca, at ele perceber que est sendo observado.
Um homem como aquele, grisalho, nem magro e nem
gordo, no muito alto, usando um colete de l fininha sobre a
camisa de mangas curtas, no deve ser alvo de muitos olhares
em um domingo no shopping, como fica claro em seu
constrangimento. O sujeito vira para todos os lados, tentando
descobrir o objeto da minha ateno. Sorrio para esclarecer
qualquer dvida: ele. Meus dentes mostra parecem aumentar
seu desconforto (se eu cortar o bife em quatro pedaos
relativamente grandes, doze minutos de mastigao para cada um
70 71
deles, consigo terminar o almoo em quarenta e oito minutos,
e ento o homem estar livre para levantar e sair).
Engulo um naco quase inteiro e a carne tranca na minha
garganta. como se uma pedra entalasse na regio da
campainha, mas ainda no h motivo para pnico. Atrs do
guardanapo de papel todo amassado, me esforo para expelir a
carne tossindo baixinho.
Nada.
Minha garganta comea a fazer um som prprio,
comandado por ela mesma e semelhante ao rudo que o gato da
minha me faz ao engasgar. Tendo percebido minhas
dificuldades, agora o homem quem me observa. Continuo com o
mtodo de tossir discretamente, mas o barulho involuntrio
da minha epiglote, ou coisa que a valha, j atrai a curiosidade
das pessoas em volta.
Eu deveria ir ao banheiro para tossir alto at vomitar, e
assim ficar livre da carne que vai me assassinar em poucos
segundos, diante dos olhares dos clientes do shopping, mas
prefiro esperar um pouco mais, No quero passar pela mesa
do pai de famlia sem famlia nesse estado, depois de me
dedicar a seduzi-lo durante a ltima meia hora.
J h motivo para pnico.
No consigo mais respirar.
Independentemente da minha vontade, minha tosse
agora gritada, quase o lamento de um bicho, talvez uma vaca
sozinha abatida a machadadas em alguma fazenda perdida
nos pampas. As lgrimas escorrem e no vejo nada, mas sei
que h muita gente assistindo minha morte. Algum perto
de mim repete: "Faa fora que sai", como se, em lugar de
sofrer um engasgamento, eu estivesse dando luz um
matambre.
Ento fui salva.
Pela intensidade do choque, deve ter sido um dos
funcionrios da segurana. O golpe que levei nas costas fez com que
o pedao de carne voasse por vrios metros, e certamente
deslocou algumas vrtebras da minha coluna.
Aos poucos as pessoas se dispersam. Crianas ainda
apontam para mim e um outro cliente ronda minha mesa,
assustado. Mas logo novas batatas fritas saem do leo e o
colesterol volta a passear em bandejas amarelas e vermelhas
pelo shopping. Todos voltam s suas refeies, e quando
parece que voltei ao meu anonimato tradicional, uma voz
educada se dirige a mim.
- Voc est bem?
ele, o homem que eu desejei no para o amor ou o sexo,
mas para me distrair enquanto mastigava. Recolho minha
bolsa do meio dos farelos e secrees cuspidas na mesa.
- Estou tima, obrigada. Se o senhor me d licena,
tenho um compromisso agora.
- Voc estava me olhando, antes do seu incmodo. Fiquei
em dvida e resolvi perguntar. Ns nos conhecemos?
Minha quase-morte chamada de incmodo. Examinei o
rosto do homem, boca, nariz, maxilares, queixo, evitando
encontrar os olhos.
- Desculpe, confundi o senhor com um tio meu. Foi engano.
- Logo vi que no era comigo. Uma moa simptica como
voc...
Simptica era um pouco demais, numa situao como
aquela. Se o homem quisesse mesmo uma chance, deveria ter me
adjetivado de linda ou de espetacular ou de sensacional, mesmo
que eu jamais acreditasse na sinceridade de suas palavras.
Tarde demais para ele.
72 73
O pai de famlia sem famlia ainda fez uma tentativa.
- Quer ficar com o meu telefone? Quem sabe, voc ficando
com saudades do seu tio, pode ligar para mim. Eu adoraria.
Virei as costas e sa. Assim como a absoluta maioria das
mulheres, as feias tambm desprezam espcimes do sexo
masculino que no demonstram amor-prprio.
S no nibus lembrei do meu carrinho cheio de
porcarias, esperando por mim em algum canto do supermercado.
Desci, atravessei a rua e voltei ao shopping ainda a tempo de
ver o homem sozinho na parada de nibus, o colete levantado
na parte da frente para refrescar a barriga.
4.7. Zico
Nada mais babaca que um escritor escrever sobre um
escritor, provavelmente seu alter ego, aproveitando para
colocar na boca e na vida do personagem tudo o que no teve
coragem de falar e viver ele mesmo. Era isso que pensava meu
colega Zico Farias, redator da agncia de publicidade onde
agora eu trabalhava como assistente de recursos humanos do
departamento financeiro, graas ao meu curso de
computao e boa vontade do seu Armando, meu chefe, que havia me
contratado, e minha inexperincia. Foi um bom negcio
para os trs. Para merecer a confiana do seu Armando, no
apenas aprendi todas as tarefas do meu novo ofcio como fui
alm, estudando nas noites e nos fins de semana tratados
inteiros sobre administrao de pessoal e de custos. Eu me
saa to bem na funo que cheguei a ganhar o prmio de
Funcionria do Ano na festa de fim de ano. Pela primeira vez, eu
ser uma mulher feia no atrapalhava o meu desempenho e as
minhas relaes pessoais. E foi assim, com uma
autoconfiana at ento indita, que fiquei amiga de Zico Farias.
Zico desprezava histrias com escritores no papel
principal, embora elas fossem suas preferidas e seus autores de
cabeceira, todos, j tivessem usado deste recurso para
prend-lo cama at a ltima pgina. Desde pequeno, Zico s
conseguia ler assim, deitado, a ponto de passar trs dias inteiros
levantando da cama apenas para mijar e beber Coca-Cola,
beber Coca-Cola e mijar, em um ciclo aquoso que s terminava
quando o livro chegasse ao fim.
Zico Farias era um escritor ainda no-publicado que
escrevia sobre prostitutas, bandidos, desocupados,
malandros, pobres em geral e drogados, sempre com base nos seus
conhecimentos empricos, ele que a vida inteira havia morado
com os pais no mesmo apartamento de classe mdia alta.
O mais prximo que Zico tinha chegado da realidade que
retratava em sua obra foi mudar para o quarto de empregada
do apartamento, sem esquecer de instalar ali um ar
condicionado. Nesse quarto ele passava suas noites escrevendo,
escrevendo, escrevendo, com o ambiente outrora proletrio
inspirando seus romances sobre os menos favorecidos e o ar
regulado para gelar o ambiente a doze graus, como se ele
estivesse sempre em um estdio no outono de Nova York.
Foi procurando um personagem para comear seu novo
livro que Zico tomou duas decises: pedir demisso da
agncia e escrever sobre um escritor.
- Preciso respirar, Ju. A propaganda est sugando minha
alma. Decidi largar tudo e escrever, integralmente, sobre um
escritor como eu, com sete livros inditos e dois publicados em
edies do autor, com o subsdio do pai do autor. Um escritor
74 75
que finalmente tem uma idia genial e chama a ateno de
uma poderosa editora. Como eu sei que vai acontecer comigo.
Zico e eu comeamos a conversar por causa das
inmeras visitas dele ao departamento financeiro, atrs de
emprstimos a serem descontados de futuros salrios. O problema
que os vales eram to freqentes, dois ou trs por semana, que
no lhe sobrava salrio a receber no final do ms, o que
recomeava o ciclo de emprstimos e tornava suas idas ao
Financeiro cada vez menos espaadas. Foi analisando a situao
econmica de Zico que passei a aconselh-lo e, em seguida,
virei sua confidente e melhor amiga. Ou era o que parecia.
Na verdade, eu estava apaixonada por ele e tinha secretas
esperanas de ser correspondida. Estvamos to prximos
que eu ser uma mulher feia no impedia meus sentimentos,
mesmo Zico sendo o tipo de cara que fazia sucesso com as
garotas bonitas. Contedo, era o que eu tinha a oferecer. Algo
que ele, como escritor, certamente saberia valorizar.
- Meu personagem no vai morar com os pais,
obviamente, para que essa condio no diminua sua fora
dramtica. Ele ser um outkder, um contraventor, um rebelde com a
causa da literatura, sublocatrio de um cmodo cheio de
vazamentos e baratas em um bairro humilde da cidade, na casa de
uma velha obrigada a lotear a casa para complementar a
penso do marido. Um personagem, enfim, digno de despertar a
admirao da humanidade. E de Daniela.
O biscoito amanteigado com recheio de doce de leite que
eu comia entalou na minha garganta. Zico j havia
mencionado a tal Daniela algumas vezes, mas eu nunca tinha dado
ateno, ou significado, s citaes.
- E quem ... Daniela?
- Nunca contei para voc da garota que me nega todas as
chances por eu ser um capitalista aproveitador e acomodado,
como ela diz?
Teria preferido que ele continuasse sem contar, mas era
tarde. Ouvi a histria de Zico mastigando com raiva os
amanteigados que ainda restavam no pacote.
Daniela era formada em antropologia na faculdade federal,
mas dava aulas de introduo filosofia para crianas do
ensino mdio. Morava com mais quatro antroplogas em um
apartamento perto da casa de Zico, que a viu pela primeira vez
no ponto de nibus, ele esperando um nibus ou um txi, o
que passasse primeiro.
Nas palavras de Zico, Daniela era linda, apesar do jeans
de fundilho cado e da camiseta velha, com a foto desbotada de
uma candidata a vereadora no-eleita, usada para fora das
calas e sem suti. A pasta com o elstico arrebentado que levava
na mo certamente explodiria a qualquer momento, tamanha
a quantidade de papel que continha, e a mochila velha
pendurada nas costas deixava mostra cadernos, livros e mais papel
amassado. O conjunto talvez no interessasse a um
observador menos atento, mas Zico, acostumado a procurar beldades
nos bares mais sujos, podia afirmar que aquela era a garota
mais bonita que j havia estado a trinta centmetros dele.
A garota mais bonita da cidade, Zico disse, fazendo com
que eu enfiasse trs biscoitos na boca de uma s vez. Na
ocasio eu no sabia, mas, algum tempo depois, iria descobrir
que ele estava, na verdade, copiando Bukowski.
Por causa dela, Zico deixou o nibus passar cheio de
lugares vagos e ignorou os txis vazios que diminuiam a marcha
76 77
ao v-lo, para entrar no nibus lotado que chegou ao ponto em
seguida.
- Eu precisava me aproximar sem parecer um desses
tarados especialistas em abordar usurias do transporte
coletivo, Ju. E a oportunidade veio quando ela deixou cair uma das
suas incontveis folhas escritas na frente e no verso. Me
abaixei para pegar, batendo a cabea em vrias bolsas e levando
um aperto involuntrio de um senhor, que fez meu queixo
encostar no local ocupado pelas bolas dele. Consegui apanhar
a folha, amassada e pisoteada, e a entreguei para ela.
- Muito obrigada. Voc salvou a minha vida.
Zico no tentou descobrir o que havia no papel para que
a garota reagisse daquela forma. Ainda assim, at o centro da
cidade e na qualidade de salvador de uma donzela em perigo,
tratou de perguntar o nome de sua vtima, Daniela, trocar
telefones e recolher todas as informaes que pudessem ser
teis para planejar o passo seguinte: convid-la para sair.
- Sabe, Dani, hoje eu j acordei pensando em pegar um
cineminha...
- Pode me chamar de Daniela. Eu odeio esse hbito
pequeno-burgus de diminuir o nome das pessoas.
Foi com essa justificativa, os hbitos pequeno-burgueses
de Zico, que Daniela jamais aceitou seus convites para sair.
Pior: que nunca levou a srio a literatura que ele fazia,
acusando-o de escrever sobre as classes excludas apenas para
enriquecer custa delas.
- Voc no sabe o que passar fome. No sabe o que
estar desempregado h anos, sem sequer a esperana de uma
colocao. No sabe o que sustentar cinco, seis filhos,
ganhando salrio mnimo. No sabe o que significa ser negro
no nosso pas. Ou sabe?
- No, graas a Deus.
No que Daniela soubesse, mas o fato de se comportar
como se fosse negra, faminta, cheia de filhos e sem nenhuma
oportunidade de estudo ou trabalho bastava para que ela se
considerasse melhor que Zico e que todos os burgueses. Ou
todos que ganhassem mais de dois salrios mnimos na
carteira, para simplificar.
O pacote de biscoitos havia terminado h tempos quando
Zico encerrou a histria, contando que publicar um romance
seria sua nica chance de conquistar Daniela. E ento com-la
em um ambiente mais do que apropriado, as dependncias de
empregada onde ele vivia. Naquela noite chorei como h muito
no sentia vontade, a pobre mulher feia apaixonada por um
homem interessado na garota mais bonita da cidade. Tanta
gua saiu do meu corpo que me senti fraca e sem nimo, a
ponto de levantar para comer uma caixa inteira de goiabada
etiquetada com o nome de Catilene. No dia seguinte, to logo o
supermercado abrisse, eu trataria de repor o doce. J minhas
esperanas de ficar com Zico, essas s um milagre do So Judas
Tadeu, o cara das causas impossveis, conseguiria devolver.
Na manh seguinte, mal cheguei ao trabalho, Zico estava ao
telefone descrevendo cada minuto da sua noite.
Depois que nos despedimos, ele foi para casa e comeou
seu novo livro com o personagem-escritor, que chamou de
Srgio, seu nome de batismo, tendo uma grande idia para um
romance. As horas seguintes Zico passou tentando imaginar
que idia seria essa. Sentado diante do computador, a cabea
mais vazia que a tela, ele construa argumentos que eram
destrudos antes mesmo de serem formulados.
78 79
- Foi um inferno, Ju. Levantei quinhentas vezes para
beber caf, Coca, gua, o licor caseiro de maracuj que minha
av faz e a ltima lata de Miller, escondida na gaveta das
verduras. Devia ser do meu pai. Liguei a televiso, o rdio, o CD,
apaguei a luz, acendi um incenso, deitei, dormi, pedi uma
pizza de calabresa forte, liguei para trs amigos que no
estavam e, no fim, fui para a Cidade Baixa encontrar algum
conhecido, ou algum desconhecido. Eu s no queria ficar sozinho.
- Voc podia ter me ligado, Zico.
- Pensei nisso, mas no quis incomodar ainda mais voc.
- Eu teria adorado.
Ele ficou em silncio por alguns segundos, no sei se
lamentando a ligao que no fez ou buscando significados
na minha reao. Talvez Zico, apaixonado por uma garota to
bonita, ficasse assustado por ser o objeto do meu amor. Eu
deveria ser mais cuidadosa nas prximas vezes, no me
mostrando disponvel demais para no levantar suspeitas sobre
os meus sentimentos.
- Vou lhe dizer o que h de errado com o meu livro, Ju.
- No tenho nada de importante para fazer aqui no
departamento agora, Zico. Vou para a sua casa e voc me fala
tudo.
Aleguei uma dor de estmago fulminante para o seu
Armando e sa. Ningum nunca duvida das dores de estmago
fulminantes das gordinhas. Foi assim que o resto da histria
Zico contou com a cabea apoiada nas minhas coxas, com
algumas pausas para compar-las aos enormes travesseiros
de penas em que deitava a cabea na infncia, quando dormia
na casa dos avs.
- Se o escritor Srgio tivesse uma idia espetacular
para um grande romance, a idia seria minha, e no dele, e o
romance seria meu, e no dele, e quem chamaria a ateno de
uma editora seria eu, e no ele, e tudo seria verdade e no uma
fico dentro da fico. Entendeu, Ju?
Dito isso, Zico ficou de olhos fechados e imvel, como que
esgotado pelo esforo de reconhecer um problema em sua
grande idia. A boca meio aberta deixava ver a ponta da lngua
e a arcada inferior, sem obturaes, ao contrrio da minha
prpria dentadura. Cheguei a ter onze cries de uma s vez,
combinao dos pacotes dirios de jujubas e do meu medo, beirando
o pnico, de ir ao dentista. Minha me contava que, aos nove
anos e forte como um adolescente de quinze, cheguei a bater
no doutor Edson, dentista da nossa famlia, quando ele se
aproximou dos meus dentes cheios de buracos com a broca
zumbindo e espirrando gua gelada. Depois do incidente,o doutor
Edson se recusou a atender qualquer membro da famlia Costa
e minhas cries no-curadas se transformaram em dolorosos e
dispendiosos tratamentos de canal. Sem minha ex-chefe, a
doutora Suzane, e seu consultrio de odontopediatria, onde
quase perdi os dedos segurando as bocas dos pequenos
cariados, provavelmente eu fosse uma mulher feia e sem molares,
caninos e incisivos, hoje em dia.
Sempre que agia por impulso eu acabava me
arrependendo, mas naquele instante no tive dvidas do que deveria
fazer. Alguns diro que me aproveitei da fragilidade de Zico
para beij-lo, e foi isso mesmo. Ele ainda tentou soltar a
cabea, mas a presso do meu corpo inteiro debruado sobre
sua boca tornou impossvel qualquer movimento. Foi um
beijo comprido, regulado exclusivamente pela minha
vontade. Zico levantava as mos e emitia sons abafados, talvez
afogado pela minha saliva. Eu ignorava os sinais e continuava
beij ando.
80 81
Quando terminei, ele levantou de um pulo e disse algo
sobre ter um compromisso com uma editora. Fingi acreditar e
peguei minha bolsa para sair. Ento Zico passou os prximos
vinte dias sem me procurar, e no vigsimo primeiro, eu onze
quilos mais larga por solido e ansiedade, voltou.
O que me falou transcrevo a seguir, como se ele mesmo
contasse:
"Em uma semana eu tinha quatro pginas escritas e nenhuma
idia para a prxima linha. Muito pouco para quem, chamado de
vagabundo pelo prprio pai, respondeu se dizendo um operrio
das palavras. Talvez influncia de Daniela, que no saa da
minha cabea.
Resolvi ir ao centro da cidade comprar revistas e jornais.
Passava das cinco e, para minha surpresa, vi Daniela no ponto
de nibus, fones nos ouvidos e os ps batendo sem ritmo na
calada.
- J sei, voc est ouvindo Oswaldo Montenegro.
Daniela balanou a cabea sem levantar os olhos, em um
movimento que tanto podia significar sim, quanto no, quanto
v merda, seu burgus idiota, e em seguida esqueceu que eu
existia. Um txi apareceu no momento em que o nibus
chegava parada. Quando Daniela e os outros proletrios j se
prepararam para embarcar, fiz sinal para o txi parar, mesmo
sabendo a falta que os quinze reais da corrida me fariam.
- Quer carona, Dani?
Eu a chamei assim de propsito e, se a sociedade fosse
regida pela coerncia, deveria esperar que a garota me
acertasse um chute na cara. Mas Daniela apenas saiu da fila, sem
vacilo algum, e ficou parada ao meu lado, esperando que eu
abrisse a porta e afastasse o banco dianteiro para facilitar-lhe
a entrada. Ia sentar ao lado dela quando veio a ordem.
- V no banco da frente, para ningum pensar que ns
nos achamos melhores que o motorista.
Ignorei a vontade de Daniela e fui at o centro
encostando minha coxa na dela, e interrompendo a cada minuto a
msica que ela ouvia para falar do meu livro, do mentiroso
interesse de uma editora conceituada pela minha obra, da
minha participao em uma antologia inventada e,
finalmente, dos meus planos, renovados, de convid-la para sair.
- Cinema hoje e depois um xis, em p mesmo, em algum
trailer sua escolha. Sem Coca, claro, que eu tambm no
suporto essas manifestaes do imperialismo.
Naquela noite ela no podia, estava estudando para um
concurso da Secretaria Municipal de Educao. Mas Daniela
ficou de me ligar, j que no havia um nmero onde eu pudesse
encontr-la, e a idia era sairmos juntos no prximo sbado.
- Vou esperar, Dani... ela.
Agora que a classe dominante lentamente vencia as
resistncias do povo, eu no colocaria tudo a perder chamando uma
de suas representantes por um apelido capitalista.
Voltei inspirado para meu quarto de empregada e
escrevi dois captulos inteiros sobre os conflitos do escritor
Srgio, desde sua sada da casa dos pais at a instalao no
quarto cheio de infiltraes de um sobrado decadente. Parei
no momento em que ele, sentado em frente a um velho
computador 386, uma carroa que j era obsoleta na poca da sua
inveno, resolvia escrever sobre a garota que amava.
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No era um tema indito, eu reconhecia, e talvez no
fosse interessante o bastante para uma editora, mas Srgio
escreveria sobre Daniela, que no Livro se chamaria Manuela, e,
se eu no progredisse urgentemente com a garota, veria seus
planos de um romance se resumirem a um conto. Na melhor
das hipteses.
- No trabalha. No ajuda em casa. No leva um copo sujo
para a pia. No consegue editar nada. Dorme at as duas da
tarde em um sbado cheio de sol. Nem a barba faz mais. Aonde
esse tipo de vida vai levar voc, Zico Farias? Ao Nobel de
Literatura? Bem, ou eu muito me engano, ou aposto que no.
Dediquei o sermo do meu pai, s catorze e dezessete do
sbado em que eu finalmente sairia com Daniela, a Srgio,
meu personagem e, v l, alter ego. Um pouco de chateao
seria til personalidade dele. To logo as lies vespertinas
do velho chegaram ao fim, voltei ao quarto para escrever e
esperar a ligao. As seis da tarde, quando o telefone tocasse,
a voz de Daniela, mais aguda do que meus tmpanos
gostariam de ouvir, mas perfeita para gritar slogans em uma
concentrao de sem-terra, definiria a hora e quando e onde seria
o nosso encontro. Uma estratgia para deix-la com a
sensao de estar no comando da situao, nessa primeira vez.
Dezoito horas. O telefone no tocou.
Dezoito e dez. O telefone no tocou.
Dezoito e quinze. O telefone no tocou, mas ainda no
havia motivo para preocupaes. Na poltica estudantil, quinze
minutos de atraso eram chamados de tolerncia bolchevique,
prazo que tanto podia ser usado para fugir da represso quanto
para ficar um pouco mais na cama ou para dois militantes se
comerem de p, no banheiro da faculdade.
Dezoito e vinte, O telefone no tocou.
Dezoito e vinte e cinco, O telefone no tocou.
Dezoito e trinta, O telefone no tocou.
Dezoito e trinta e trs. O telefone tocou.
- Puxa, Daniela. At onde eu sei, a tolerncia bolchevique de
quinze minutos.
- Vamos nos encontrar s nove e vinte na frente do rion
para ver o ltimo do Costa-Gavras. Cada um paga o seu.
E desligou sem um beijo, como se, em vez de lazer,
estivesse tratando da invaso do velho cinema do centro da
cidade aonde ningum mais ia, s Daniela, que certamente
era contra as salas dos shoppings.
Cheguei meia hora antes e comprei o ingresso dela.
Daniela apareceu linda, a no ser pela roupa, saia de algodo
floreado e a camiseta, j meio gasta, de uma ONG contra o uso
de pele animal. Com um rosto e um corpo daqueles e um bom
banho de loja, como eu poderia proporcionar se meu Livro
estourasse na lista dos mais vendidos, Daniela era mulher
para deixar um cara satisfeito por bons cinco anos, no
mnimo. Mesmo com o pssimo figurino, eu me sentia orgulhoso
por estar com ela e s lamentava o cinema quase vazio para
minha exibio no ser um sucesso completo.
O filme no era mau, admito. No final, Daniela parou na
calada para opinar sobre cada cena, enquanto a rua pouco
movimentada ficava cada vez mais deserta. Achei que
chegava a hora de lev-la para um lugar mais seguro. Meu
quartinho de empregada, por exemplo.
84 85
- Impossvel, Zico. Combinei de dormir na penso do
cara com quem estou saindo. Ele ia panfletar at as onze,
agora j posso ir para l. No precisa me acompanhar at o
nibus. Obrigada pelo cinema e at qualquer dia desses. Foi
tudo timo."
Acompanhei Zico at seu quarto sem a necessidade de um
convite. Ele j entrou no quarto de empregada segurando os
meus peitos e, quando eu j estava nua e ajoelhada no meio
das suas pernas, disse que deletaria os cinco captulos em que
Srgio Farias narrava sua vida desinteressante de escritor
apaixonado pela garota mais bonita da cidade. Bukowski j
escreveu sobre isso com muito mais talento, ele disse.
- Amanh comeo um novo romance sobre qualquer tipo
de pessoa, uma strip-teaser, um traficante de bom corao,
um doador de smen, uma empregada domstica, um matador
de aluguel. Mas nunca mais sobre um escritor.
Histrias de amor com final feliz nunca deram bons livros,
Zico resmungou, antes de enfiar a barba na minha bunda. Mais
tarde ele abriu a porta de servio para eu ir embora sozinha.
E depois que eu sa, nunca mais me procurou ou quis ser
encontrado por mim.
4.8. David
Fiz aniversrio ontem e j h algum tempo noto em mim
algo que sempre percebi nas mulheres, nas feias e nas
bonitas: com o passar dos anos, os traos do rosto vo
endurecendo, sofrendo transformaes, se modificando at tomar
uma conformao quase masculina. Basta reparar nas
mulheres de meia-idade e nas velhas para comprovar a verdade
desta observao. Bocas cadas, olhos sem brilho, cabelos
mais ralos, manchas e sinais, alguns com grandes fios
pendentes. As mulheres terminam a vida parecidas com os
homens e s no so confundidas com eles por causa dos
vestidos estampados que usam.
Examinando atentamente meu rosto, sou forada a
reconhecer que, no meu caso, o processo j comeou. E ainda nem
completei trinta anos.
bem verdade que nunca fui dona de um rosto delicado,
desses de maxilares finos e lbios desenhados, mas agora o
quadro piorou. Uma penugem relativamente espessa cobre
toda a minha ctis, denominao em vigor apenas nas bulas
dos produtos de beleza que eu compro no supermercado.
"Espalhe suavemente pela ctis para assegurar uma
aparncia acetinada." Vai ver os plos que aos poucos nascem da
testa at meu queixo so resultado dos cremes que venho
usando ao longo da vida. Preciso me acostumar com a idia de
enxergar o Tony Ramos sempre que me olho no espelho.
Junto com os plos, identifiquei tambm um
alargamento nasal. Everton, meu irmo mais velho, sempre disse
que o nariz e as orelhas s param de crescer com a morte. No
meu caso, talvez o aumento seja um problema sseo, excesso
de clcio causado por todo o doce de leite que comi desde o
meu nascimento. O fato que meu nariz ficou maior, mais
achatado e mais volumoso na parte superior, bastante
parecido com o que meu av Gaspar, j falecido, ostenta nas fotos
que cobrem as paredes da casa da minha me. Cujo rosto,
como no poderia deixar de ser, lembra com triste fidelidade
as feies do vov Gaspar.
86 87
Eu estava ficando com cara de homem e, como se no
bastasse, havia vrias outras questes estticas com que me
ocupar.
Minha largura, por exemplo.
Mulheres bonitas costumam apresentar peso
proporcional altura e, mesmo quando se excedem nas lasanhas e
chocolates, isso no causa maiores transtornos do que no entrar
em uma cala jeans apertadssima ou desistir, mesmo que
temporariamente, do biquni de lacinho. J uma mulher feia
acima do peso tem mais perdas para chorar.
Se no for impresso minha, meus colegas da agncia de
propaganda andam conversando menos comigo e com os
meus quilos a mais. Almoo realmente sozinha em um buffet
livre, o que no de todo mal. Posso me servir quantas vezes
quiser sem piadinhas ou olhares de recriminao. Tambm
trabalho melhor, sem interrupes para contar o que fiz na
noite passada ou como foi meu fim de semana. As pessoas
costumam achar que a vida de uma gordinha feiosa se limita ao
horrio comercial, o que at faz algum sentido, na minha
atual fase. Seja como for, tenho toda uma agenda social
imaginada para relatar, se algum dia algum se interessar em
perguntar por ela.
A quantidade de opes do meu guarda-roupa tambm
diminuiu e sinto saudades de duas ou trs blusas largas que
me acompanhavam j havia algumas estaes. Mas dos
homens a falta que eu mais sinto neste perodo em que meu
rosto vai virando o de um deles e meu tamanho extrapola a
cada dia o manequim GG, de Grande e Gorda, na livre
interpretao do meu irmo Everton. Preciso procurar com urgncia
no livrinho do plano de sade o telefone de um
endocrinologista, de um dermatologista, de um cirurgio plstico e de um
cardiologista, este ltimo para tratar meu corao dodo de
abandono e solido. Tomara aqueles comprimidos de colocar
sob a lngua pudessem me ajudar.
Era acompanhada de todas essas tristezas que eu
almoava na quarta-feira, quando algum bateu levemente no meu
ombro.
- sua? Estava no cho.
Demorei a entender que era a mim que o homem alto,
moreno, de barba negra, um prato cheio de salada em uma
mo e minha bolsa amarfanhada na outra, se dirigia.
- No sua? Ento vou entregar para o garom.
- minha, claro, minha velha bolsa de estimao!
Velha sim, de estimao, jamais. Eu usava aquele saco
pudo por pura falta de iniciativa de entrar em uma loja e
comprar o que fosse. Apanhei a bolsa tentando esconder seu mau
estado.
- Muito obrigada, como posso agradecer?
- J agradeceu, no se preocupe. Tchau.
- No!
Minha voz fez com que varios clientes Interrompessem a
refeio e outros tantos retirassem as cabeas de dentro das
cubas do buffet para me olhar. O homem alto, objeto do meu
grito, parou no meio do caminho e me olhou.
- Por favor, gostaria de lhe oferecer um suco ou uma
sobremesa ou um caf. Ou um suco, uma sobremesa e um caf.
Em agradecimento pela sua gentileza.
- Voc j agradeceu. At outro dia, garota.
At outro dia, ele disse, e ento foi sentar sozinho em
uma mesa perto da janela. Garota, ele me chamou, e fiquei com
a impresso de ter notado uma ponta de carinho no modo
como a palavra foi articulada.
88 89
Garota.
Passei a tarde olhando com ternura para a bolsa
estragada. No que eu costumasse me apaixonar pelo primeiro
homem bonito que juntava minhas coisas do cho, mas depois
de tantos meses sem nenhum acontecimento relevante
envolvendo pessoas do sexo oposto, aquela no deixava de ser uma
oportunidade que a vida me apresentava. Amanh eu voltaria
ao buffet, e depois de amanh e de amanh, de amanh e de
amanh, de amanh de amanh tambm. Eu chegaria ao
meio-dia e um segundo e ficaria l at um segundo para as
duas da tarde todos os dias, sentada na mesa da janela em que
ele ficou, at encontrar o barbudo novamente.
Pensei isso alisando os plos que cobriam meu prprio
queixo. Se eles continuassem crescendo, e supondo que
minhas intenes com o barbudo se concretizassem, eu corria o
risco de acabar dividindo o mesmo pincel de barba com ele.
No foi uma idia romntica. Melhor procurar, junto
com o endocrinologista, o dermatologista, o cirurgio plstico
e o cardiologista, uma boa depiladora tambm.
Na quarta-feira seguinte, depois de uma semana inteira
almoando durante duas horas sem parar, na esperana de
ver o barbudo, finalmente consegui encontr-lo. To logo ele
se acomodou, segurei minha bolsa velha como um trofu e
iniciei a abordagem.
- Oi, lembra dela?
- Falou comigo?
O barbudo olhou primeiro para a bolsa suja e rasgada,
depois para mim, depois para a bolsa, depois para mim, e no
reconheceu nenhuma das duas.
- H uma semana, voc juntou essa BOLSA e entregou
para MIM. No lembra mais?
- Desculpe, garota. De fato, seria difcil no lembrar de voc.
Comeos so assim, ou promissores, no caso das
mulheres bonitas, ou apenas comeos, no caso das feias. Importante
que eu havia feito contato e agora estava transferindo meu
prato bem-servido para a mesa dele.
- Vou sentar com voc e assim a gente se conhece melhor.
Cuide da minha bolsa, sim?
Deixei minha bolsa vergonhosa na cadeira, sem esperar
pela resposta do barbudo. Quando voltei, ele j estava diante
de um frugal prato de salada.
- Voc vegetariano?
- No, mas no me excedo nas carnes e prefiro as magras.
Podia ser uma indireta, mas preferi ignorar.
- Ainda no nos apresentamos. Meu nome Ju. Muito
prazer.
- David. Prazer.
- Que nome lindo. Seus pais so ingleses?
- No.
- Americanos?
- No.
- Seus avs eram estrangeiros?
- Bageenses, do interior do Rio Grande. Toda a nossa
famlia de l.
- Que interessante, David.
Ele ficou em silncio, apenas mastigando suas rculas e
agries.
- Os vegetais andam caros, no? O governador disse que
por causa da seca.
- Conversa de poltico.
90 91
Era preciso estabelecer o dilogo rpido. Olhando para o
corpo esguio do barbudo, tudo indicava que ele no repetiria
o prato. Eu tinha poucas folhas de alface, dois tomates-cereja
e uma msera couve-flor para me aproximar.
- Aquele dia que voc juntou minha bolsa, puxa, voc
nem sabe o favor que me fez. Imagine que eu estava com todo
o dinheiro da empresa para depositar.
Mentira, mas pelo menos ele olhou para mim.
- No diga. Voc trabalha com valores?
- Sou gerente financeira. Muito prazer.
Ofereci a mo a David, que largou o garfo para apert-la,
sem saber se devia retrucar com um "prazer, sou analista de
sistemas". Como ele no falasse nada, perguntei.
- Voc faz o qu?E onde?
- Sou promoter.
- Como assim?
- Promoter. Em uma casa noturna. Recebo as pessoas,
escolho quem entra e quem fica na rua, fao a divulgao das
festas. isso.
- Que interessante, David.
Ele cortou fora o talo da couve-flor antes de lev-la
boca. Entendi que a conversa estava chegando ao fim.
- Quer que eu guarde lugar para voc no almoo de amanh?
- S almoo aqui s quartas. Saio do meu psiquiatra e
venho para c. Nos outros dias, durmo at as trs. Passo as
madrugadas acordado por causa do meu trabalho.
- Onde fica a sua boate?
- Casa noturna. Guarde o carto. No temos
consumao de teras a quintas. At qualquer hora.
At qualquer hora, no, David. At quinta noite,
quando eu vou convidar Catilene para ir na casa noturna em que
voc promoter. Lemon Dream, diz o carto. Sonho Limo?
O que significa isso? Aposto que o pessoal da agncia teria um
nome mais inteligente para sugerir.
Passei a tarde me confundindo com as contas do final do
ms, at seu Armando perder a pacincia com meus erros e
me despachar para a xerox. David. Lemon Dream. Por que
ser que o barbudo consultava um psiquiatra? Assim, nos
primeiros contatos, ele parecia ser um homem absolutamente
normal. Catilene, deixe seu vestido preto com brilhinhos na
rea de servio para arejar. Amanh voc vai comigo desven-
dar os segredos de David.
Catilene no foi comigo. Alegando primeiro os estudos,
depois cansao, depois sono e finalmente que no achava
#
ir sozinha para a noite, de txi, at um galpo perto do
aeroporto, em uma zona retirada da cidade. Passava das onze
horas e fiquei com o celular do motorita. para a hiptese de
no conseguir uma carona com David na volta.
O Lemon Dream era uma caixa de concreto pintada de
verde-limo, com dezenas de pessoas em uma fila, todas
parecendo se divertir com a espera para entrar. Vendedores de
cerveja tratavam de abastecer os clientes com suas caixas de
isopor encardidas e a msica que vinha do interior da casa era
suficiente para que muitos danassem na calada. Uma gorda
de minissaia pregueada e tranas era a mais animada,
empurrando os outros com passos de dana que lembravam
movimentos de luta livre. Vez por outra ela derrubava algum, e
ento a fila inteira gritava.
- Super-Nani, uh, uh.
Fiquei vrias posies atras da Super-Nani, cuidando
para no ser atingida por seus golpes. Ela devia ser uma figura
92 93
conhecida nas filas da Lemon Dream e no teve problemas
quando finalmente chegou porta. Quarenta minutos
depois, um segurana grande e vermelho decretou que eu
no entraria.
Eu no havia passado por tantos obstculos para voltar
para casa sem falar com David.
- A casa est cheia?
- Vai ficar.
- Quero entrar agora.
- Todos querem.
- Eu conheo o David.
- Todos conhecem, gordinha.
- Pode cham-lo, por favor?
- Espere ali ao lado, junto com os amigos do David.
- Ele vem me buscar?
- Claro que sim. A moreninha de piercinq pode entrar.
Fiquei junto com a turma chamada de Amigos de David
pelo segurana, todos barrados como eu. Olhando para eles,
eu no conseguia entender os critrios da Lemon Dream para
definir suas personas non gratas. Isolados em um canto da
calada, os Amigos de David reuniam jovens de touca de l,
trs amigas com os cabelos alisados e enormes brincos de
argola, um gay espalhafatoso, vrias pessoas de culos
escuros e um casal de meia-idade. Eu podia mesmo dizer que era a
nica no grupo a ser uma potencial discriminada por
pertencer a alguma minoria, ou duas, para ser mais exata, a das feias
e a das obesas, embora minha quase certeza de que ramos
maioria no mundo. Se David aparecesse para me resgatar, eu
perguntaria a ele que tipo de pessoa seria recomendvel
algum nascer para entrar sem traumas na Lemon Dream.
E ele apareceu.
Eu estava h pouco mais de meia hora esperando,
quando o vi dando instrues na porta.
- David!
O barbudo olhou e eu segurei bem alto a bolsa azul-clarinho
seminova que pedi emprestada para minha colega Guacyra.
Ele no reconheceria a bolsa, mas com certeza lembraria do
gesto.
Mostrei todo o meu desprezo ao segurana quando
passei para o interior da Lemon Dream conduzida por David. L
dentro, meus ouvidos doeram com o som alto demais e meus
olhos no conseguiram mais ver, tanto pelo breu local quanto
pelos fachos de luz ofuscantes que varriam o ambiente de
quando em quando. Eu no sabia sequer se David ainda
estava comigo ou no. Tateando, consegui encontrar uma
parede e fiquei encostada l, rezando para que as lmpadas se
acendessem e eu recuperasse o rumo.
- Cansada?
Impossvel ver quem perguntava, Impossvel saber se
era para mim que perguntavam.
- Falou comigo?
Em resposta, algum pegou minha mo e comeou a
brincar com as gordurinhas dos meus dedos.
- So sweet...
Avoz sussurrada veio de um plano mais baixo que o da
minha cabea. Senti minha mo se umedecer de repente.
Algum que eu no enxergava lambia meus dedos um a um,
assoprando-os com suavidade depois. Com a mo que restava
livre procurei o rosto do meu sedutor. Ou seria sedutora?
Era um homem e tinha o rosto coberto por uma barba tao
espessa quanto macia. Sim, David ainda estava comigo, talvez
sentado no cho, o que explicava eu ter encontrado seu rosto na
94 95
altura dos meus peitos. E como estes se localizavam um tanto
mais abaixo do lugar convencional, eu seria mais exata se
dissesse que o barbudo alcanava, no mximo, a minha cintura.
E se fosse David ajoelhado aos meus ps?
Puxada pelos cabelos, desci at encontrar uma boca com
cheiro de cerveja e, mais ao fundo, pizza ao alho e leo.
Quando cansei de beijar o barbudo toda curvada, sentei ao lado dele
e continuamos nos beijando at as centenas de luzes da
Lemon Dream se acenderem de uma s vez.
- Sacanagem, meu irmo. Qual ?
A claridade revelou um cara de cabelos e barba
vermelhos, pequeno e magro, praticamente sentado no meu colo.
O contrrio teria sido fatal para o homenzinho.
- Conheo voc?
- Pode me chamar de Little Fire.
Little Fire levantou esfregando os olhos. Eu sentada e ele
em p, ramos quase da mesma altura.
- Legal te conhecer, guria. A gente se v na noite.
Ele pulou para beijar meu rosto. Lembrei imediatamente
de Pipico, o chihuahua avermelhado de minha prima
Tiasmina, que saltava nas pernas de todos em busca de um osso ou
um afago. Em lugar de pedir meu telefone ou de apertar
minha mo ou apenas dizer at logo ou adeus, Little Fire se
despediu de um jeito peculiar.
- Apaguei!
No vi David entre os eufricos e os bbados que deixavam a
Lemon Dream. Muitos seguiam em grupos na direo do
aeroporto. com certeza para pegar o trem. Sem mala e com aquelas
roupas, duvido que fossem passageiros de algum vo.
Eram quase seis da manh quando cheguei em casa. Eu
tinha reunio com o seu Armando s oito e meia e preferi
ficar acordada para no perder a hora. Tomei um caf da
manh forte e calrico e comi boa parte dos pes e biscoitos
etiquetados com o nome de Catilene. s oito eu j estava na
agncia, dormindo em cima do meu computador. Tomara que
no fossem muito os relatrios a conferir e os nmeros a
confirmar, em uma sexta-feira que prometia ser longa.
E no foi.
A reunio com o seu Armando tinha o objetivo de me
demitir. Ele alegou meus sucessivos erros e as desconfianas
geradas por eles para encerrar meus quatro anos no
departamento financeiro da SCD Comunicao.
- A agncia vai pagar aviso prvio. Voc est dispensada
a partir de agora.
Sa sem enviar pelo correio eletrnico o tradicional
comunicado de quem leva um pe na bunda:
"Prezados colegas,
Estou partindo para novos desafios. Gostaria de
agradecer avocs e, em especial, aos meus chefes, por tudo o que aprendi
neste perodo. Abaixo segue o meu telefone, para que
continuemos mantendo contato."
Seu Armando teria que passar sem o meu agradecimento
fingido e meu novo desafio seria estar em casa o dia inteiro sem
engordar mais cem quilos, assistindo a televiso e comendo
para passar o tempo.
96 97
Chorando, liguei para minha me do primeiro orelho e
contei o infortnio. Ela insistiu para que eu fosse
imediatamente para a casa onde cresci e fui feliz.
Onde cresci, melhor dizendo.
Continuei chorando no colo dela, no ombro do meu pai,
nos ouvidos do meu irmo Everton e no quarto do caula
Emerson, que estava desaparecido havia quatro dias. Tomara
que no tivesse morrido, at mais por mim do que por ele.
Minha cota de sofrimento j estava preenchida, com o
episdio da demisso.
- No morreu, no. Ele agora vive assim, quatro dias
fora e um em casa, metido com uma dona que tem dois filhos.
J, j eu corto as asinhas dele. Seu irmo est pensando que
isso aqui hotel? Ah, quando ele aparecer. No queira estar na
pele dele, Ju.
Desde pequena eu ouvia minha me dizer que no era
nossa empregada e reclamar sobre o quanto ns ramos
imprestveis e que a casa no era lavanderia ou restaurante
para nos fornecer tudo na hora em que quisssemos. Desde
pequena eu vivia com a impresso de morar no na minha
casa, mas no reino da minha me, onde as crianas s davam
trabalho e traziam preocupaes. Impossvel saber se havia
marido e filhos no meu destino para desmentir a tese que
constru, mas, at prova em contrrio, eu considerava a famlia o
ltimo lugar do mundo para uma criana se sentir importante
e necessria. Talvez, ao fim do meu estudo sobre a sexualidade
da mulher feia, eu escrevesse um livro sobre o assunto.
Carandiru Parte II, um relato sobre a vida em famlia.
Deixei minha me falando da ingratido de Emerson e
fui para casa. A casa de Catilene, na verdade. No caminho,
comprei o jornal para iniciar a busca pelos classificados. Eu
precisava de um novo salrio para pagar minha parte no
aluguel ou seria demitida do apartamento tambm. Catilene no
era o tipo de pessoa que se comovesse com as desgraas sociais
do pas, como a minha fome e o meu desemprego.
No pensei mais em David at a prxima tera-feira
anoitecer. Todas as quartas o barbudo almoava no buffet a
quilo depois do psiquiatra, segundo o prprio. J eu estava
almoando todos os dias na casa dos meus pais, para minha
economia e prejuzo deles. Ainda assim, iria ao buffet para ver
David. Podia ser a ltima vez e eu queria me despedir.
Ele chegou quase duas da tarde, mas dessa vez eu no
tinha pressa. Pude esper-lo calmamente, comendo
vorazmente e fazendo valer cada centavo gasto no almoo, At
guisado com quiabo experimentei.
- Guardei lugar para voc.
David agradeceu minha gentileza e foi direto se servir.
- Muito legal sua boate.
- Casa noturna. Mas no mais minha. Sa de l na
quinta passada.
- Na noite em que eu fui? O que aconteceu?
- Estou partindo para novos desafios. Aproveitei para
rever tudo. Hoje larguei meu psiquiatra e em breve mudo de
endereo tambm.
Assim como eu, David havia levado um p na bunda e
estava cortando despesas. s que no ia confessar isso para
mim. O que nunca houve entre ns terminava
melancolicamente naquele momento. Tambem ele no tinha mais razes,
nem dinheiro, para almoar no buffet ou manter um padro
de vida de assalariado. Ser que ao menos ele tinha os pais
vivos para filar as refeies, como eu?
- E onde voc vai trabalhar agora?
98 99
- Estou analisando propostas.
Traduzindo: David no tinha perspectiva alguma. Se ele
dissesse que ia ser consultor, eu saberia que estava acabado.
Pude aprender na agncia que este o destino de todo
profissional em vias de ser demitido ou no desvio completo. l que
tipo de consultoria presta tanta gente que no exatamente
vencedora, isso eu no cheguei a entender.
- Serei consultor. Vai ser muito melhor para a minha
carreira.
David sai da histria aqui, sem nunca ter sido mais do que uma
esperana para mim. No soube o que ele pensava, no
descobri o que queria, nem fisicamente o conheci, tanto que passei
uma noite inteira com o barbudo errado, enquanto imaginava
beij-lo. E se foi, no balano final, um nada na minha histria
por que dedicar um captulo a ele?
Por raiva de mim.
da psicologia das mulheres idealizar a mnima
possibilidade de amor que se apresente. E at mesmo das que tm
probabilidade zero, caso da feia que gosta do cara mais
bonito da aula. Se houvesse um censo de quantas vezes uma
mulher se apaixona por uma miragem ao longo da vida, os
nmeros, com certeza, surpreenderiam os pesquisadores
mais experientes.
David ter juntado minha bolsa esfarrapada do cho foi o
suficiente para eu perder o sono por ele. Para eu persegui-lo no
buffet, gastar uma fortuna em txis, errar a contabilidade da
empresa em que trabalhava, sonhar barbaridades a qualquer
momento do dia, horrio comercial includo. Algum j disse
que as mulheres no se apaixonam por uma pessoa, e sim pelo
amor. Eu arriscaria um adendo: e as mulheres feias no se
apaixonam pelo amor, e sim por um fiapo de amor-prprio.
Feitas tais consideraes e esclarecendo-se que elas se
baseiam to-somente na minha prtica, sem o apoio terico
da antropologia ou da sociologia ou da psicologia ou de
qualquer outra cincia, David deve estar hoje prestando
consultoria em algum lugar do mundo. E se no fosse eu ter lembrado
dele ao encontrar minha velha bolsa amarfanhada no fundo
de um armrio, eram grandes as chances de que no figurasse
nestas pginas, como no figurou na minha vida.
4.9. Annimo Dois
Eu morava sozinha h menos de um ms, depois de onze
anos sob o jugu de Catilene. Nesse perodo tive varios
empregos diferentes, mudei de cabelo inmeras vezes sem que isso
causasse alteraes positivas na minha aparncia e estive
apaixonada na maior parte do tempo. Geralmente sem ser
correspondida.
Meu novo apartamento ficava perto do meu novo local
de trabalho. Alias, alug-lo s foi possivel porque ele
pertencia me de uma colega que logo virou minha melhor amiga,
Aldomara. Dona Luzimara, a me dela, dispensou fiador e
demais burocracias por confiar na recomendao da filha.
E assim eu passei a morar em um apartamento de dois
quartos, pagando quase o mesmo que Catilene me exigia a cada
final de ms, a mesquinha.
No comeo foi estranho me ver em um espao to
grande, eu que estava acostumada com as sobras de Catilene, o
quarto menor, a prateleira vaga na geladeira, o banheiro s
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quando ela no precisasse usar, jamais um convidado meu em
casa. Ento descobri, aos trinta e dois anos, que nada se
compara a ser dona da prpria vida. Eu ocupava meu novo
apartamento como se nele morasse uma famlia inteira, no a minha
de origem, bem entendido, que minha me sempre nos imps
a ordem e a limpeza. Nos meus domnios eu queria todas as
luzes acesas, a tev sempre ligada, os cmodos bagunados, a
loua acumulada na pia. Liberdade, afinal.
Agora eu trabalhava no departamento de pessoal de uma
rdio e s vezes ajudava os locutores, selecionando as cartas
de ouvintes que iam ao ar e conduzindo os entrevistados at o
estdio. Era o melhor emprego que eu jamais sonhei, um
legtimo golpe de sorte, o nico da minha existncia, at onde eu
lembrava. Perto do Natal e com uma colocao temporria em
uma farmcia, atendi a diretora e voz-smbolo da rdio, Ktia
Summer, conhecida como a Voz do Vero, e me declarei f dela
e da emissora. Continuei atendendo Ktia enquanto o Natal
no chegava, indicando as pastilhas para a garganta mais
eficazes e baratas e os sprays colutrios de sabor menos
repulsivo. No meu ultimo dia, ela me deu um carto e mandou
procur-la na rdio.
Uma semana depois, j com mesa, crach de funcionria
e carteira assinada pela Baticum FM, eu era a mulher mais
feliz do mundo. A mulher feia, pelo menos. Aquela era a grande
oportunidade da minha vida e eu estava decidida a aproveit-la
como tal. Na ausncia de um homem para ocupar meu corpo e
minha cabea, eu pensava na rdio o tempo inteiro. E foi assim
que, em uma tarde, entrei na sala de Ktia Summer.
- Sabe, Ktia, eu acho que esse slogan, A Voz do Vero,
restringe muito o seu alcance. E se voc mudasse para Ktia
Summer, A Voz de Todas as Estaes?
Ktia no apenas concordou, como passou a ser
anunciada conforme eu havia sugerido. Foi meu primeiro grande
xito profissional e eu sabia que viriam outros. Pela primeira
vez eu experimentava as maravilhas da autoconfiana e
estava encantada comigo.
Aldomara, a filha da dona do meu novo apartamento, era
a telefonista da rdio. Para compensar um rosto prximo da
hecatombe, Deus deu a ela uma voz macia e modulada, que a
fazia sonhar em trocar o PABX pelos microfones. Para isso
Aldomara tinha aulas de tcnica vocal e apresentava
gincanas e eventos em uma igreja, como treinamento para uma
futura estria na Baticum FM. Aldomara falava o tempo
inteiro como se estivesse em um programa de rdio,
empostando a voz e se referindo a todos como ouvintes, qualquer
que fosse a situao. Quando queria sair comigo, ela irrompia
no departamento de pessoal, onde s eu trabalhava, e antes de
entrar no assunto saudava as multides.
- Boa-tarde, ouvintes desse Brasil to grande e to cheio
de belezas e riquezas. Este convite vai para nossa ouvinte Ju,
para participar, logo mais, de um programa informal no bar
Oriente, com direito a cerveja gelada e amendoim torrado.
Voc aceita, Ju?
Em um domingo, quando levei Aldomara para almoar
na casa dos meus pais, no restou dvidas para ningum de
que ela possua alguma perturbao mental. A mesa,
Aldomara contava fatos de naturezas diversas como se narrasse o
Fantstico, enunciando antes uma espcie de manchete sobre
o que iria falar e emitindo efeitos sonoros com a boca para
separar um tema do outro. Eu, que j estava acostumada com as
performances dela, consegui devorar trs ou quatro pratos de
estrogonofe sem maiores estranhezas. J para minha famlia
102 103
foi mais difcil controlar os acessos de riso e at a irritao.
O silncio e a paz no existiam com Aldomara por perto.
Seja como for, eu vivia uma fase feliz e Ktia Summer
havia mesmo me acenado com a possibilidade de ajud-la na
produo do programa da tarde. Uma chance que eu pretendia
agarrar com unhas rodas e dentes cheios de obturaes, mas
nem por isso menos preparados para a luta.
Na noite de quarta fiquei at mais tarde na rdio, j com
o objetivo de me mostrar disponvel para Ktia. Quando
cheguei ao ponto de nibus, quase dez da noite, me deparei com
um escoteiro. No um menino, mas um escoteiro adulto, as
coxas peludas saindo do calo cqui e as meias brancas,
imaculadas, na altura do joelho.
- Boa-noite.
Ele me cumprimentou educadamente, com certeza uma
das boas aes previstas no Manual do escoteiro. Era
estranho estar na rua ao lado de um homem de calas curtas e
leno no pescoo, mas pelo menos eu estaria protegida, caso
algum malfeitor me ameaasse. Respondi, gentil:
- Boa-noite.
- Sorte sua eu estar aqui. J pensou uma moa atraente
sozinha nessa parada escura?
Ele disse moa atraente, e com certeza estava praticando
outra boa ao. Ningum nunca havia me chamado assim.
- Mas voc acha esse lugar perigoso?
- Nossa. As estatsticas apontam a mdia de um
assassinato por dia neste morro.
O medo que senti me fez estremecer por vrios segundos
consecutivos. Assustada ou excitada, eu reagia assim,
tremendo como se tivesse Parkinson.
- Ficou apavorada? Nada disso. Comigo aqui, ningum
toca um dedo em voc.
Enquanto durou a espera pelo nibus, ele me falou da
filosofia do escotismo e dos princpios de Baden Powell, que
at ento era nome de violonista, para mim. Sentamos juntos
e deixei minha casa passar para continuar ouvindo os
princpios do escotismo por mais algumas quadras.
- Posso acompanhar voc at sua residncia?
- Puxa, eu estava to distrada ouvindo suas histrias
que perdi minha parada. Agora preciso ir at o centro.
- Sua casa fica longe daqui? O txi custaria mais de cinco
reais?
Se custasse, eu completaria o valor. Foi o txi arrancar e
j estvamos nos beijando e abraando, felizes como s nos
primeiros beijos e abraos possvel ser.
- Voc no tem uma torneira pingando, uma boca de gs
com vazamento, algo para consertar? Sei arrumar tudo em
uma casa, sabia?
Fiquei com a impresso de que, se eu no estivesse um
tanto acima do peso, ele me carregaria pela escada. Depois de
tirar minha roupa toda, o que me provocou alguns segundos
de arrepios constantes, ele comeou a despir seu uniforme.
- Por favor, no. Voc fica to bonito assim. D para s
abaixar o calo?
Tudo aconteceu com o escoteiro de uniforme completo,
incluindo o leno. Ele era escoteiro da terra, acho que a cor
cqui da sua roupa significava isso. Se meu irmo Everton
ainda guardasse o velho Manual do escoteiro mirim, com os
sobrinhos do Pato Donald ensinando sobrevivncia e bondade
para as crianas, eu esclareceria essa e outras dvidas que a
breve convivncia com o escotismo j havia me trazido.
104 105
Por que no se pode fazer fogo com madeira verde?
Qual o ngulo correto para um relgio de sol marcar o horrio
de Brasilia?
Como posso saber se a cobra que me picou na selva venenosa?
Qual a ttica para abordar um velhinho em apuros sem ser
confundido com um assaltante?
Comnsumatum est, o escoteiro levantou da cama alegando
calor. Suando muito, principalmente no pescoo envolvido
pelo leno cqui, ele fez uma vistoria no apartamento em
busca de eletrodomsticos para consertar, quadros para
pendurar ou utilidades para instalar. Foi feliz em todas as etapas
da sua busca. Eram quase seis da manh quando ele me
despertou com a mesa posta para o caf e um pedido.
- No use nada no desjejum, por favor.
Sempre nua, acompanhei-o at a porta.
- Encontro voc na parada do nibus?
- Dificilmente. Eu estava ali por acaso, depois de
acompanhar uma senhora de idade.
- Como eu vejo voc de novo?
- Vou ficar com o seu telefone. Um ltimo beijo.
Tremi descontroladamente enquanto o beijava. Se eu
no fosse uma garota direita, imploraria a ele por mais uma
boa ao, antes que o mundo nos separasse.
- Eu sei que voc muito jovem, mas j pensou em
consultar um mdico sobre Parkinson?
- No se preocupe. Eu sou assim mesmo.
Ele levantou os dedos no que me pareceu ser uma
saudao para iniciados e sumiu pelas escadas. Mais tarde, na
rdio, dividi com Aldomara o segredo da noite anterior.
- Cara ouvinte, voc arrumou o homem perfeito e o
deixou ir embora sem pegar o endereo? Mas ela est brincando
com o prprio destino, Brasil!
- Perfeito ele no era. Estava de calo.
- Mas bem que, na hora, a ouvinte gostou. No deixou
sequer o rapaz ficar vontade, ouvintes! Vamos fazer uma
ao conjunta e localizar esse cidado pelo telefone!
Se algum conhecer o escoteiro, ligue para a rdio e
informe o paradeiro! Ateno para o nome dele na voz da nossa
ouvinte...
- Eu no sei o nome dele, Aldomara. Esqueci de perguntar.
Ktia Summer realmente passou a me delegar tarefas na
produo da rdio. Em pouco tempo eu fazia os contatos com os
entrevistados, selecionava as notcias que iam ao ar, acompanhava
as equipes nas externas, tudo nos intervalos das minhas
funes no departamento de pessoal. Eu trabalhava muito e me
esforava para ser competente em tudo. Ktia percebia e cada
vez eu ganhava mais responsabilidades, alem de cuidar da
folha de pagamento. At que um dia, quase nove da noite, ela
me chamou.
- Ju, pensei em uma nova funo para voc. Acho que
esse seu jeito compreensivo, prestativo, seria perfeito para
responder s dvidas e reclamaes dos leitores no ar. Pegue
aquela pilha de cartas, estude as respostas e vamos gravar um
piloto amanh. Se der certo, voc ganha um horrio fixo.
106 107
Eu, locutora de rdio. Ou titular do Servio de
Atendimento ao Ouvinte Baticum FM, esse era o melhor nome para o
programa. Isso se meus recm-adquiridos delrios de
grandeza no sugerissem Servio de Atendimento da Ju, SAI, o
mais novo sucesso no seu dial. Minha me no acreditaria.
Passei a tratar minha voz como um bem a ser garantido.
Fazia parte dos meus cuidados banir toda e qualquer bebida
gelada do cardpio, o que inclua o Nescau batido com leite, o
iogurte lquido e os sucos que eu ingeria vrias vezes ao dia.
J a Coca-Cola continuei bebendo em todas as refeies, s
que quente, o que muitas vezes me provocava a sensao do
vulco Etna explodindo no meu estmago. Sorvetes tambm
entraram no ndex dos proibidos e tiveram sua falta
compensada por balas e chocolates. Completavam o tratamento
gargarejos de gua e sal, exerccios para as cordas vocais e mel,
muito mel. Se poucas colheradas j faziam efeito, imagine
vidros inteiros.
O programa foi ao ar e logo virou campeo de audincia
na rdio. Os ouvintes eram atrados por minha voz agora
lmpida, ainda que um tanto estridente, e pelas respostas que eu
preparava para as cartas endereadas Baticum FM.
"A ouvinte Ins Alencastro escreve para saber por que a
Baticum FM, possuindo essa razo social, quase no toca a
msica do nosso pas. Bem, Dbora, a diretora da nossa rdio
segue a linha do rock. Mas j estamos providenciando um
espao de ziriguidum para ouvintes como voc, que tm o
samba no sangue. No perca, a partir de maio, o Baticum Brasil,
nas madrugadas da nossa rdio. Quero ver voc dormir agora,
Dbora. Um grande abrao."
"O ouvinte Michel, que no informa o sobrenome, diz que a
Baticum FM perdeu a personalidade e hoje se confunde com
a paisagem do FM. Confunda mas no ofenda, Michel. A
Baticum a rdio mais original do Brasil. Oua as concorrentes
com ateno e depois, se voc no ficar surdo, volte para
conversar. Abraos da nossa equipe."
"A ouvinte Mima pergunta se o locutor Eduardo S. to lindo
quanto sua bela voz. Bem, Mima, quem respondeu para voc
foi a mulher do Eduardo. E ela disse tantos palavres que eu
no posso repetir no ar. Tudo de bom para voc."
Eu estava to feliz com minhas novas atividades e vinha sendo
to respeitada por causa delas que, durante algum tempo,
pensei que o mundo havia se esquecido da minha feira.
Mera iluso.
Um dia surpreendi um dos operadores de mesa e o
locutor do noticirio do meio-dia falando da sorte da Baticum por
ser uma emissora de FM.
- Se fosse TV, a Ju entrava no ar e a censura cortava a
imagem. Perigava at cassar a concesso, ha, ha.
Fui para casa abalada. E me afundei ainda mais no trabalho.
Mesmo quando j no tinha tarefas a cumprir eu saa tarde da
rdio, na esperana de encontrar o escoteiro na parada de nibus.
108 109
Quantas caronas recusei e quantos txis reneguei, apenas para
esper-lo no local onde o vi pela primeira e ltima vez.
Aldomara, que acabou se afastando de mim, reflexo por
eu ter chegado aos microfones da Baticum enquanto ela
seguia telefonista, espalhou o caso do escoteiro pelos
corredores da emissora.
- Ateno, ouvintes: ela no perguntou sequer o nome
do sujeito. Foi como ter o bilhete premiado na mo e jogar no
lixo. por causa de gente assim que essa terra no progride,
caros ouvintes do Mampituba ao Chu.
Estranho que, como mulher feia que era, Aldomara ainda
no tivesse entendido que a vida amorosa da nossa espcie, e
por vezes de todas as mulheres, feita de episdios curtos.
E no de grandes seqencias.
4.10. Rocha
Ele era bonito, acho que um metro e noventa, loiro,
educado e se chamava Rocha. Tinha tudo para nunca perceber
minha existncia, mas era atencioso e gentil demais at
mesmo para um porteiro, funo que desempenhava na
Baticum FM.
No incio pensei que me tratasse com tal respeito por eu
ser, afinal, uma comunicadora em ascenso, dona de uma das
maiores audincias da rdio com o meu programa de
atendimento ao ouvinte. Sobre isso, alis, havia novidades.
Embora eu tratasse meu trabalho com toda a seriedade,
o Servio de Atendimento ao Ouvinte Baticum FM passou a
ser considerado a produo mais engraada jamais veiculada
por qualquer rdio do Sul. Eu ia para casa, selecionava as
cartas, ficava escrevendo respostas at a madrugada chegar e,
em lugar de seguir meus conselhos, a audincia ria de mim.
Mais que isso, gargalhava.
Quem me alertou para o fato foi Ktia Summer. Com a
voz que deixava bonitos at os pedidos de cheeseburger com
queijo duplo que fazia ao telefone, Ktia perguntou se eu
conhecia a real percepo dos ouvintes sobre o meu programa.
- Espero que as pessoas saibam que eu respondo s
cartas com toda a minha alma e todo o meu corao.
- Imaginei que voc cometesse esse equvoco. Sente a,
Ju. Precisamos conversar.
Ktia ento contou que tinha sido procurada por um dos
jornais da cidade em busca de informaes sobre o programa,
julgado por muitos uma verso piorada dos humorsticos do
Tiririca ou do Joo Klber ou algo assim. At falar com Ktia, o
jornal achava que a produo era propositadamente ruim, ou
trash, como a reprter classificou, chamando de lixo todo o
meu esforo.
- Mas, Ktia, se os ouvintes pensam que ns estamos
fazendo piada, o Servio de Atendimento ao Ouvinte Baticum
perde toda a razo de existir. S nos resta terminar com o
programa.
- Eu tenho a impresso de que para voc, Ju, sempre
preciso contar a histria do mundo desde o incio, comeando
pela parte em que ramos amebas mergulhadas no grande
caldo csmico.
- Ju, o programa no vai acabar.
- Voc vai seguir no ar respondendo s cartas. Foi isso
que deu certo, de um lado sua sinceridade hilariante e, do
110 111
outro, os ouvintes, desacostumados com a verdade,
acreditando que voc est ali para fazer um humor da pior espcie.
Ju, acredite em mim: voc um sucesso.
No virei capa do Segundo Caderno, no parei nos
noticirios da televiso, no fui reconhecida nas ruas. A reprter
do jornal conversou comigo na rdio, mas foi embora sem
tirar a mquina fotogrfica do estojo.
- Melhor assim. Vamos deixar o ouvinte imaginar o seu
rosto. muito mais instigante.
No fiquei mais feliz com tanta ateno, pelo contrrio.
O que o mundo estava fazendo era debochar dos meus
propsitos e se divertir com a minha exposio.
Azar.
Eu no deixaria que a humanidade acabasse com a
melhor fase da minha vida. E foi assim que continuei
respondendo s cartas, que agora no eram apenas de ouvintes
querendo saber o estado civil dos locutores, ou reclamando da
programao da emissora, ou elogiando, muito esporadicamente,
uma ou outra msica pelas lembranas perdidas que ela havia
trazido. Agora, os ouvintes, e em particular as ouvintes, me
escreviam tambm para pedir conselhos sentimentais.
"Ju, eu e minha melhor amiga estamos grvidas do mesmo
homem, que se nega a assumir qualquer um dos filhos. Voc
acha que devemos consultar o mesmo advogado, para facilitar
os trmites?
Luza, de Caxias, em nome tambm de Bianca, da mesma
cidade."
"Em primeiro lugar, Luza, no posso deixar de
observar que existe uma certa dose de pouca-vergonha no seu
caso. S falta voc me dizer que as duas engravidaram na mesma
sesso. Bem, aps consultar informalmente as doutoras
Santa e Milene, advogadas da Baticum FM, aconselho vocs a
constiturem advogados diferentes. A justia conservadora
e quanto menos o tribunal se parecer com uma grande orgia,
melhor. Pelo menos quando estamos olhando. Bom parto para
voc e sua amiga."
"Cara Ju, depois de muitos anosfreqentando cultos
evanglicos com a exclusiva inteno de manter relaes ntimas com
as fiis, que se caracterizam por preservar a virgindade
clssica e no fazer restries a outras prticas. creio ter ouvido o
chamado do Senhor. Voc acha que ainda h salvao para a
minha alma?
Rudi, de Veranpolis"
"Rudi, creio que sua alma ir se salvar. Mas aps o seu
relato, temo pelo que possa acontecer ao seu corpo. Boa sorte
para voc."
"Aps sete anos de casamento, meu marido no me procura
mais,. Voc conhece algum mtodo realmente eficaz para me
ajudar a reconquist-lo? Desde j, obrigada.
Carmen, de Porto Alegre."
"Querida Carmen, casamento uma loteria. No sei
como voc era e no que se transformou: no sei se seu marido
ainda o mesmo de sete anos atrs ou se hoje outro homem,
provavelmente pior. Mas se voc me permite, tambm no
acho que isso tenha grande importncia. Meus pais so
casados h mais de trinta anos e, desde que posso lembrar, eles
so pssimos um com o outro. Acho que o seu caso no tem
soluo. Se seu marido voltar a procurar voc, ser por uma
112 113
situao circunstancial, uma bebedeira ou um momento de
grande solido. melhor voc no fazer nada. Qualquer
conselho meu pode precipitar as coisas. Grata pela sua carta."
O volume da correspondncia que eu recebia aumentou tanto
que agora Aldomara me auxiliava, selecionando comigo as
cartas mais interessantes. Em breve, ela tambm teria sua chance
na Baticum FM, entrevistando pessoas comuns na rua, em
busca de solues para a poltica, a economia e a cultura. Meu
sucesso estimulou Ktia Summer a pensar em novas atraes
interativas, que era como ela se referia ao tipo de comunicao
que eu fazia. J o pblico e os jornalistas chamavam de trash.
Numa noite em que sa cansada da rdio, depois de
passar quase dezoito horas trabalhando tanto no programa
quanto no departamento de pessoal, encontrei o porteiro de um
metro e noventa sem sua roupa de porteiro, parado na entrada
do prdio.
- Seu Rocha, quase no reconheci o senhor.
- Pois estava le esperando, dona Ju. Pensei em
acompanhar a senhora at o ponto de nibus.
Rocha falava moda gacha, engolindo o "h" da
partcula "lhe" e dando a ela um certo ar espanhol.
- Ora, quanta gentileza. Vamos, ento?
Era o segundo homem que demonstrava interesse por
mim naquele ponto de nibus, e talvez fosse o segundo em
toda a minha vida, desde que o escoteiro no o houvesse feito
por razes humanitrias. Senti uma ponta de amargura ao
pensar nisso.
- Sabe, dona Ju, eu sou um homem muito direto. Por isso
decidi le dizer hoje o que venho sentindo h tempos. Estou
interessado na senhora, essa a verdade. Sou solteiro, tenho
dois filos de um casamento anterior e fao um curso pr-vestibular
para melorar de vida. Minhas intenes so srias e
quero aqui pedir a chance de demonstrar isso para a senhora.
A declarao de intenes de seu Rocha me pegou de
surpresa. O homem era to determinado quanto um profissional
da portaria deveria ser e tambm articulado como jamais
imaginei que algum deles fosse. Preconceito, essa eterna
fonte de enganos. Quanto ao "lh", ele no os engolia apenas
na partcula "lhe", mas em qualquer palavra que possusse a
slaba.
- Bem, seu Rocha, no posso negar que sempre o achei
muito agradvel e, se me desculpa o atrevimento, bonito. Mas
nunca considerei nenhum tipo de relao com o senhor que
no fosse eu entrar e sair e o senhor me abrir e fechar a porta.
- Pois saiba que sempre le tive em grande estima, dona Ju.
No me ocorreu outra resposta seno uma pergunta: por
que no?
Seu Rocha, quer dizer, Rocha desceu do nibus na minha
casa e l passou a noite. Respeitador, aps uma madrugada
inteira de conversas na sala, eu em uma poltrona, ele na outra,
pediu licena e deitou no sof, de roupa, tendo o cuidado de
deixar os sapatos arejando na rea de servio.
Na manh seguinte, chegamos de mos dadas Baticum
FM. Rocha no apenas me acompanhava, ele me ostentava,
para minha prpria surpresa e das demais pessoas do mundo.
Eu j havia visto isso algumas vezes, homens caminhando
orgulhosos ao lado de minhas irms de feira. S nunca achei
que pudesse acontecer comigo.
No final do dia, Rocha levou seu uniforme para lavar na
minha casa. Preparei o jantar e fomos para o meu quarto. Ele
114 115
estava nervoso e nossas intimidades resumiram-se a um
rpido sexo oral, eu no papel ativo da coisa. Rocha dormiu
imediatamente, no sem antes grunhir algo sobre estar
apaixonado por mim.
A situao continuou a mesma nas semanas seguintes.
Com o fracasso das minhas indiretas para que
experimentssemos outras modalidades de sexo, decidi abandonar as
sutilezas. Depois de um dos muitos jantares que eu j havia
providenciado e patrocinado para ele, e cujas sobras Rocha fazia questo
de levar em uma quentinha para almoar no meio-dia
subseqente, fiquei nua e conduzi tudo de maneira a obrig-lo a agir.
Como tentasse fugir, deitei meu corpo sobre o dele, e que
maravilha apoiar todo o meu peso contra aquele slido metro e
noventa, sem o risco de esmigalhar seus ossos no colcho.
- Eu no consigo.
Rocha repetiu a confisso em voz baixa por trs vezes, e s
ento eu entendi. Vesti um chambre estampado, presente da
minha me, e esperei na sala que ele esclarecesse o assunto
comigo. Muito tempo depois, ouvi seus roncos fortes vindo do
quarto. Como era seu hbito, o porteiro dormia o sono dos justos,
excepcionalmente sem um orgasmo antes, naquela noite.
- Isso uma vergonha. Meu Brasil-anil-varonil, que atitude
resta a essa ouvinte seno abandonar o Rocha? Ou eu deveria
dizer... o Broxa?
- Fale baixo, Aldomara. Contei essa histria s para voc,
no para todo o pas.
- Ouvintes da Baticum FM, se vocs querem que o Broxa
v para o paredo, liguem meia-meia, meia-morta, meia-mole,
meia-dura.
- Sua imitao de animador de auditrio ridcula,
Aldomara. Esquea o que ouviu aqui e no abra essa sua boca
para ningum. Vou tratar do meu problema sozinha.
Mas a verdade que eu no sabia que soluo dar para o
caso.
Como se nada houvesse acontecido, Rocha continuou indo
para a minha casa todas as noites. Sua presena comeou a
atrapalhar o meu trabalho no Atendimento ao Ouvinte Baticum FM.
Agora eu s podia responder s cartas depois de lavar a roupa
dele, preparar o jantar e participar de uma sesso unilateral de
sexo oral. E quando finalmente me via diante de uma pilha
de cartas para ler, os roncos de Rocha atravessavam todas as
paredes e vinham me encontrar onde eu estivesse, perturbando
minha concentrao e levando embora minha inspirao.
"Cara Ju, preciso do seu conselho. para resolver um
grande problema. Namoro um homem bom, honesto, solteiro, sem vcios,
bonito at, mas que, em seis meses de relacionamento, jamais
encostou um dedo em mim. E.&~e homem i~ofre de impotncia para
ntanrer n~iae~ ,~exuab~, reayindo UJ)~UW~ qUUtLUE) ~AtImuiuaO
ora/mente. Se perguntado porque, ento, nunca utiliza o mesmo
procedimento em mim, responde que no gosta e ordena que eu
continue o servio. O tal homem vive hoje praticamente na minha
casa e minha custa, sendo eu a responsvel porsua
alimentao e pela limpeza de suas roupas. Cara Ju, voc, que sempre tem
palavras to sensatas para os ouvintes, me ajude a resolver
essa situao e lhe serei grata para sempre.
Assinado, Ju."
Meu inferno j contava sete meses, recorde absoluto da
permanncia de um homem ao meu lado. E que permanencia.
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Rocha se comportava cada vez mais como dono da casa e
de mim, reclamando do meu tempero e exigindo suas camisas de
porteiro ainda mais brancas do que eu lavava. Ento, quando
eu j achava que um dia comemoraramos nossas bodas de
prata com uma noite especial de sexo oral nele, o final chegou.
Depois de arrumar a cozinha, eu lia as cartas dos meus
ouvintes e Rocha assistia um humorstico qualquer na televiso.
- Ju, venha c. Quero le mostrar uma coisa.
- J cansei de ver o que voc quer mostrar, Rocha. Hoje
eu vou trabalhar.
- Ju, srio. Preciso que voc veja.
Durante minha longa vida solitria, muitas vezes
desejei um homem chamando meu nome com urgncia. Agora que
tinha um, tudo o que isso significava era mais trabalho, mais
despesas e uma futura inflamao nos maxilares, a se manter
o ritmo atual das minhas obrigaes de esposa.
Encontrei Rocha em frente ao guarda-roupa, a pilha de
camisas de porteiro nas mos.
- Veja, Ju. Elas j no so alvas como antes. Talvez seja o
sabo em p que voc usa. O que podemos fazer?
- Quem sabe colocar todas as camisas em uma sacola
para deix-las na lavanderia, quando voc for para a sua casa?
- No se ofenda, querida. Estou s fazendo uma
observao, s isso. Basta olar as camisas com ateno e voc mesma
vai reconhecer.
- Eu quase no acredito que voc me tirou do trabalho
para ver esses trapos amarelados. Chega, Rocha. O
Restaurante e Tinturaria Ju acaba de fechar as portas para voc.
- Voc est nervosa e resolveu descarregar em mim, mas
eu entendo. Volte para as suas cartas, se elas so to
importantes. Amanh pensamos juntos no problema das minhas camisas.
- No existe problema, Rocha. A lavanderia certamente
vai resolver tudo. Por favor, v embora da minha casa.
Eu tremia quando me servi de um copo com gua e foi
difcil controlar meus movimentos enquanto colocava ali
vrias colheres de acar; velha e deliciosa receita caseira que
eu me prescrevia sempre que perdia a calma. Para garantir
a eficcia do tratamento, adocei ainda mais a gua. Comecei a
juntar as coisas que Rocha espalhara pela sala, o chinelo de
tecido, estilo "chinelo do papai", o cortador de unhas, os
culos de grau comprados na farmcia da esquina, o livro que ele
tentava ler h meses, Quem mexeu no meu queijo?. Pelo menos
no meu queijo eu sabia exatamente quem estava mexendo.
Ele apareceu de uniforme, com os cabelos penteados
para trs e uma mala minha na mo. Parecia nu acreditar
que em poucos instantes cruzaria a porta para nunca mais ter
comida e sexo oral to fcil. No comigo, pelo menos.
- Estou indo. No tem nada para me dizer, Ju?
Eu podia perguntar por que Rocha transformou nossa
vida sexual em uma maldio - eu sem direito a qualquer tipo
de divertimento -, mas tive pena de ouvir a resposta. Acho
que o coitado sofria de disfuno ertil na alma.
- Voc vai se arrepender. E sabe disso, no ?
Deixei que ele se fosse em silncio. No me custava nada
dar a Rocha o benefcio da dvida, embora, na maior parte da
minha vida, nem isso houvessem me dado.
Poucos sabiam ser to generosos quanto uma mulher feia.
118 119
5. CONCLUSO
TENDO POR BASE o que vivi, e imaginando o que ainda vou viver,
minha inteno primeira era encerrar este estudo com uma
concluso lgica: a mulher feia enfrentar ao longo de sua
trajetria, em maior ou menor grau, inmeras dificuldades
em todos os seus relacionamentos, no apenas os afetivos,
mas tambm os sociais.
Imagem tudo, dizem os nossos dias.
No entando, fatos acontecidos ao longo deste trabalho
me obrigam, se no a mudar os rumos da concluso, ao menos
a torn-la mais abrangente. Minha nova tese que no s as
mulheres feias se vero, com freqncia, diante de
desencontros e desencantos, mas que tais situaes ocorrero com as
mulheres em geral. E, apesar da relevncia dos aspectos
psicolgicos neste processo, impossivel no observar a
importncia dos fatores externos na formatao final da espcie.
As fbulas com plebias que viram princesas no ltimo
captulo, a leitura de livretos como Julia, Sabrina e Bianca, as
novelas de televiso com suas heronas sofredoras, sempre
recompensadas com um grande amor no final, a busca
desesperada para realizar ideais romnticos antes mesmo da
realizao profissional ou da maturidade emocional, tudo isso
torna a desgraa acessvel a todas. Obviamente, um rosto e
um corpo fora dos padres e propores da nossa poca
contribuiro para a desgraa.
120 121
Essenciais para essa nova viso, que rompeu com o
egosmo das minhas prprias vivncias, foram as cartas que
recebi das ouvintes da Baticum FM. Feias, bonitas, jovens,
experimentadas, inteligentes ou nem tanto, todas elas me
fizeram ver que nem sempre o insucesso est ligado m
aparncia, como at ento eu acreditava. E como a duquesa da
Cornulia, Camilla Parker Bowles, desmentiu para o mundo inteiro.
Transcrevo a seguir algumas das cartas das ouvintes da
Baticum FM. E termino este livro com uma certeza.
Para feias e bonitas, muitas vezes a solido a grande
escolha.
"Depois de passar a vida me envolvendo com homens de todos
os tipos, todos sempre estranhos (um s fazia sexo dentro de
uma piscina de plstico que mantinha ao lado da cama, outro
s conseguia ter uma ereo se eu o chamasse de "meu
filhinho, sem falar no cara que eu namorei por quatro anos e que
jamais pronunciava palavras terminadas em "o , ia e ado ),
conheci um rapaz que deixou toda a famlia orgulhosa da
minha capacidade de conquista. Mdico, loiro, educado, forte,
fino, Heitor abria a porta do carro para mim e caminhava
sempre do lado de fora da calada, para que eu me sentisse
protegida por sua muralha de msculos. Nossas intimidades no
me entusiasmavam muito, verdade, mas eu era feliz com a
simples possibilidade de um dia tudo melhorar. Ento, quando
j pensvamos em casamento, Heitor comeou a agir de
maneira estranha. Em qualquer lugar onde estivssemos,
olhava para mim e fazia caras ferozes, selvagens at,
simulando mordidas e arranhando o ar na minha direo, como se
suas mos fossem as patas de um tigre. No incio pensei que
tudo terminaria com uma gargalhada, mas, encerradas suas
performances, Heitor permanecia srio como um felino ferido.
Mais algum tempo e ele passou a ter relaes comigo usando
uma mscara de leopardo. Na festa dos setenta anos da minha
av, depois de Heitor passar a noite assustando a
aniversariante com suas ameaas de ataque a mim, decidi no v-lo
nunca mais. Soube que ele passou meses deprimido com o
rompimento, fechado em casa como se estivesse em uma
caverna. No voltei atrs. Ainda que demore a encontrar um
homem de quem eu goste, ou mesmo que nunca encontre, no
acredito que pudesse ser feliz com o cover do Tigro do
Ursinho Puff. Minha me, inconformada at hoje, no concorda."
(E. N., 23 anos)
"Deixei de ser menina, virei adolescente e entrei na idade
adulta sem que a menor sombra de um peito, ou
preferencialmente de dois, passasse por mim. Se eu tinha glndulas
mamrias, meu corpo esqueceu. Poderia ir praia apenas de
calo sem despertar a ira dos conservadores, mas nunca o
fiz. Se Deus me desse um busto como o que Pamela Anderson
ganhou dos cirurgies, a sim eu teria vontade de exibi-lo. Aos
catorze anos, quando todas as minhas amigas j usavam
suti, ganhei um de presente, mais pela compaixo da minha
me que pela necessidade. Continuei crescendo (menos na
parte do busto) e, como sempre acontece com as desva lidas,
um dia me apaixonei pelo garoto mais bonito da sala. Quando
soube do meu interesse, ele espalhou pelo colgio o seu
repdio e ainda cunhou o apelido que desde ento levo pela vida:
Tati Tbua. Foi assim que vi a inveno do suti que aumenta
os seios como a salvao da minha sexualidade. Tratei logo de
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comprar vrios, de cores e modelos diferentes e, coincidncia
ou no, as coisas mudaram para mim. Antes sem
pretendentes, tornei-me bastante popular entre os rapazes, com minhas
novas blusas justas marcando os contornos avantajados que
eu, de fato, no tinha. O nico inconveniente era jamais poder
tirar o suti, em hiptese alguma, e conserv-lo mesmo
quando todas as outras roupas eram arrancadas. Pois
namorava Ronaldo j havia alguns meses quando combinamos
uma viagem. Fiz minha mala na ltima hora e, com a pressa,
esqueci de colocar meus sutis com enchimento. Pior: na
praia para onde fomos, no existia sequer uma loja onde eu
pudesse compr-los. Eu tinha duas alternativas: assumir para
Ronaldo que nasci sem selos ou terminar tudo antes que ele
descobrisse. Preferi a segunda hiptese. Nunca mais sa da
cidade. Nunca mais sa com ningum. Nunca mais vou
namorar, pelo menos enquanto no tiver dinheiro para prteses de
silicone."
(T. L., 35 anos)
"Sempre dei azar com os homens. No o azar clssico de no
conseguir algum ou de ser desprezada por eles, e sim a pouca
sorte de me acontecerem coisas bizarras quando estou em
companhia masculina. Na minha primeira vez, por exemplo,
com um garoto que mal conhecia, senti uma sbita dor de
barriga no motel, e o motel no tinha diviso entre o quarto e o
banheiro. Algum tempo depois, tomava banho de piscina nua
com um rapaz quando um vizinho invadiu o ptio em busca de
uma xcara de acar. Fazia sexo oral em um namorado que
morava com a famlia e, a caminho do banheiro para cuspir os
excessos, fui cumprimentada pelo pai do rapaz, sendo
obrigada a beijar o velho nas duas faces. Levei um desconhecido
para o meu apartamento, depois de uma festa, e ele se foi
enquanto eu dormia, levando minha chave, vinte reais e a
minha calcinha preferida. Dormi na casa de um homem
casado cuja mulher estava de frias na praia e,
inexplicavelmente, perdi minha blusa l. Na manh seguinte, tive que ir
para o trabalho usando uma camisa da mulher do cara, cinco
nmeros maior que o meu. Final do ms e eu, sem dinheiro,
fui para uma festa levando apenas algumas moedas para
voltar de nibus. Depois de danar pouco e beijar muito um
sergipano que l estava, aceitei ir para a penso onde ele estava
hospedado. De madrugada, quando quis ir para casa, vi que
uma das moedas havia cado do meu bolso e estava grudada
na bunda do sujeito. Sem coragem de pedir a moeda, caminhei
quatro bairros para conseguir chegar em casa. No sei o que
acontece comigo. No sou feliz com os homens."
(J. D., 24 anos)
"Chamada costumeiramente de Tribufu e Tinhoso, para citar
dois dos meus apelidos menos ofensivos, cheguei aos
quarenta anos sem qualquer contato ntimo ou mesmo de
amizade com os homens que conheci. De um deles, em uma festa
de amigo secreto no banco, cheguei a ganhar uma imagem de
So Jorge, o protetor dos drages. Se disser que passei a vida
sofrendo com tal situao, estaria mentindo. L pelas tantas
me acostumei com a solido e passei a cultivar outros prazeres,
literatura, jazz, cinema de arte, pintura classica. o que fez
de mim uma pessoa bastante interessante. Uma pena que a
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nica platia para a exposio dos meus conhecimentos fosse
formada por meu pai e minha me. Em um dos poucos
aniversrios a que fui convidada na vida, o de cinqenta anos de
uma prima to solitria quanto eu, conheci Jane e Beth.
Simpticas e comunicativas, as duas me trataram com ateno e
delicadeza. Entendi que eram um casal em um jantar na casa
delas. Nessa mesma noite fui apresentada para Simone e bem,
estou com ela at hoje.
O So Jorge que ganhei agora est na sala da nossa casa.
Por pura coincidncia, ele era o santo de devoo de Simone."
(C. L., 41 anos)
"Domingo. Depois de amargar por trs anos a solido tpica
das feias, encontro em uma festa um rapaz de aparncia mais
ou menos aceitvel, disposto a me fazer companhia. Fico com
ele. Depois de algum tempo no vai-no-vai, combinamos nossa
primeira ida ao motel em telefonemas cheios de segredo. Eu
morava ento com meu pai, homem antiquado e rigoroso, que
no admitia a hiptese de a filha no ser mais virgem. Mal
sabia ele a dificuldade que havia sido encontrar um parceiro
para deixar de ser.
Dia marcado, primeira vez com ele. E primeira depois de
muito tempo para mim. A ltima havia sido com um motoboy
que me entregou uma carta do SPC. No motel, pedimos uma
sute com hidro. Os sais de banho e a espuma ajudam a criar o
ambiente romntico.
Depois das preliminares, levanto para buscar a
camisinha. Ele fica me esperando em meio espuma. E espera,
espera. E espera. Cansado da demora e sem entender meu
desaparecimento, vai me procurar. Ao chegar na porta do
banheiro, pra: estou estendida no cho, com um grande corte
na cabea. Desmaiada e ensangentada. Um espelho
quebrado na parede d a pista do que aconteceu. Por uma dessas
fatalidades da vida, entrei com a testa na decorao do quarto.
Como no acordo de maneira alguma, nem com tapinhas no
rosto, nem com o choro dele, nem com a funcionria da
portaria me aplicando uma respirao boca a boca, a soluo
chamar uma ambulncia.
Cena 1. A ambulncia entra no motel.
Cena 2. Paramdicos sobem as escadas e entram no quarto.
Cena 3. Eu nua, desmaiada ao lado da cama redonda.
Cena 4. Acordo no hospital, sem saber ao certo o que
aconteceu. Ao meu lado, me encarando com a maior tristeza que j vi
no olhar de algum, meu pai. O rapaz, esse eu nunca mais vi."
(P. C., 28 anos)
"Passava por uma fase solitria quando o conheci na
internet. Professor universitrio, bom texto, agradvel, excelente
cultura geral. Depois de quase dois meses de conversas
dirias por e-mail, marcamos um encontro no bar da faculdade
de direito. Ele prometeu usar um cravo na lapela. e achei
romntico. Na hora marcada, estava l, uma flor vermelha no
casaco. Um olho esbranquiado denunciava sua cegueira
parcial e ele tinha uma perna s. Fui embora antes que me visse
com o olho sadio e nunca mais respondi seus e-mails.
Continuo sozinha at hoje."
(A. P. L., 31 anos)
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"Estava saindo com um cara legal, o genro que a minha me j
havia perdido a esperana de ter. Era bonito, inteligente, gentil,
boa companhia mesmo. Ia com ele a bares e festas e, pela primeira
vez na vida, estava me fazendo de difcil. Beijava e mais nada.
Um dia ele me contou ter encerrado um noivado de dois
anos depois que a noiva passou a evitar relaes com ele. Para
consol-lo, disse coisas como "essa menina era doente" e "acho
que ela enganava voc com outro". Enfim, tentei minimizar o
estrago causado pela mulher, at que chegou a minha vez.
Em uma noite, aceitei ir a um motel e, para minha
surpresa, o aparelho sexual do rapaz no possua mais de quatro
centmetros.
Entendi a noiva. Nunca mais aceitei sair com ele, nem
para tomar caf. Existem problemas na vida que nem a
mulher mais sozinha do mundo precisa procurar."
(P. M., 34 anos)
"Morava no interior e casei aos vinte anos, sem ceder as
investidas do meu futuro marido. Na nossa noite de npcias, antes
mesmo de eu tirar o vestido, ele me pediu para ficar de p, de
frente para a parede, levantou minha roupa e penetrou-me na
parte posterior, sem sequer me avisar sobre o que iria
acontecer. Gritei como nunca na vida e ento desmaiei. Acordei no
hospital, com a me dele segurando minha mo e querendo
saber se eu estava bem. Me recusei a voltar para casa e a
separao correu revelia do meu ex-marido. Por enquanto, no
penso em relacionamentos com mais ninguem."
(S. A., 25 anos)
"Me apaixonei por um homem gentil e extremamente
educado. Alternava o ingls e o francs com seu portugus
perfeito e passava jantares inteiros declamando Cames para
mim. Era bonito, embora s vezes me desse saudade de falar
tambm sobre novela ou futebol. Saamos havia um ms
quando ele me convidou para uma viagem ao campo.
Passamos o dia observando flores e conversando sobre a beleza dos
recursos naturais. Quando deitamos para dormir, ele no
tirou os culos, nem as meias, e continuou me tratando com a
delicadeza habitual. No final, que chegou rpido, perguntou
se no havia me machucado. Na volta para a cidade, encerrei
nossas relaes com uma carta educada e o nome dele escrito
caprichosamente no envelope. Quando penso nele, acho
muito mais interessante a minha atual solido."
(S. L., 28 anos)
"Sempre aproveitei as oportunidades com vontade,
principalmente porque elas no costumam se apresentar com facilidade
para mim. Fiel a esta filosofia, aps meia hora de conversa j
estava abraada a um homem de rabo-de-cavalo que encontrei
na formatura de uma amiga. De repente, ele comeou a falar de
carros. Entre um beijo e outro, murmurava coisas sobre
arranque, potncia, motor, surdinas, e acho que s no falou da
rebimboca da parafuseta para no quebrar o clima. Ele tirou a
camisa e me mostrou suas tatuagens. Eram bielas e pistes
pelos braos e um motor de seis cilindros na perna. Depois de
uma performance fraca, o homem dormiu em cima de mim e
seu brao comeou a causar minha morte por asfixia. Tentando
me livrar do corpo, enrosquei o anel que usava no cabelo dele.
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- O que voc fez?
O homem levantou de um pulo, levando meu anel nos
cabelos e quase arrancando meu dedo indicador.
- Meu implante. Voc estragou meu implante.
Eu no sabia, mas ele usava interlace, mtodo dos
carecas da poca parecerem Sanses.
A histria chega ao fim com o homem sendo obrigado a
cortar seus cabelos falsos, que terminaram por entupir a pia
do meu banheiro. Depois disso, ele bateu a porta e sumiu, e
meu anel desapareceu tambm. Isso aconteceu h trs anos.
Desde ento, espero todos os dias por outra oportunidade."
(R. B., 31 anos)
"Nunca tive um namorado oficial, o que me faz olhar com
ateno para todos os caras que passam perto de mim. Foi
assim que conheci G. Ele no era exatamente lindo ou
inteligente, mas tinha seu charme. Falava bem e me fazia rir, o
suficiente para que eu me interessasse por ele. Samos vrias
vezes, at que chegou o dia de eu visitar seu apartamento.
Quando ele tirou a camisa, entrei em pnico. G. era
extremamente peludo. Perto dele, o peito do Tony Ramos parecia
sofrer de calvcie. Nos imaginei passeando na praia, ele uma
verso pocket do Chewbacca de Guerra nas Estrelas, e no
consegui ir adiante. A partir dali, fugi at o peludo desistir de
mim. Depois soube que G. espalhou pela cidade que eu era
frgida. Estou sem namorado at hoje, mas no sei se a fofoca
que ele fez tem alguma influncia nisso."
(A. R., 26 anos)
"Desde criana eu era considerada a chata, a complicada, a
mal-humorada, a azeda e, como muitas vezes ouvi nos apartes
disfarados de meus parentes, a feiosa da famlia,
caractersticas que se acentuaram com a idade. Tanto a minha quanto a
deles. Em uma noite de domingo, j com quarenta e poucos
anos e morando na companhia do meu angor, Sinval, decidi
buscar um vdeo na locadora distante pouco mais de trs
quadras da minha casa. Na volta, achei que um homem
caminhava muito prximo de mim. Atravessei e ele atravessou
tambm. Por precauo, decidi andar pelo meio da rua, e o
homem me seguiu. Comecei a correr e logo escutei passos
rpidos no meu encalo. Corri mais ainda. Felizmente, alguns
rapazes saindo de um prdio desencorajaram meu
perseguidor e consegui chegar a salvo.
No outro dia, almoando na casa de minha me, contei
do perigo pelo qual havia passado.
- A cidade est muito violenta. Eu podia ter sido
assaltada. Ou seqestrada. Ou at mesmo estuprada.
Minha av, que ento tinha mais de oitenta anos,
interrompeu sua sopa para um comentrio rpido:
- Otimista, hein?"
(L. R., 42 anos)
"Era meu vizinho e um dia o encontrei chegando de muletas.
Havia quebrado a perna e passaria quatro meses engessado
at a coxa. Foi a primeira vez que falou comigo, e se mostrou
interessado em continuar a conversa mais tarde. No outro dia,
fui visit-lo e terminei por ajudar no seu banho. Na quinta-
feira seguinte dormi com ele, o que exigiu de mim certa percia
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para no esfacelar-lhe ainda mais a perna. Enquanto durou o
gesso, fui sua enfermeira, domstica e namorada, no
obrigatoriamente nessa ordem. To logo se viu curado, e j que
podia at correr, passou a fugir de mim. Hoje mal nos
cumprimentamos. Uma amiga sugeriu que eu entre com uma ao
trabalhista contra ele. J que no posso recuperar meu tempo,
que ele seja remunerado, ao menos."
(T. B., 32 anos)
"Sa de casa disposta a dar fim na minha solido de oito meses
e no tive dvidas de que isso aconteceria quando ele me
abordou em uma boate escura e abafada. Era um negro alto e
simptico e, depois de alguns beijos, resolvi convid-lo para ir ao
meu apartamento. Na sada, fui pegar sua mo e ele no tinha
um brao. Que no fez falta nem naquela e nem nas noites que
se seguiram, me levando a concluir que Deus havia
compensado a falta do brao dele com outros atributos. Um dia
terminamos, sem dramas e sem saudades. No era mesmo em
casamento ou amor eterno que eu pensava quando no encontrei a
mo dele."
(A. L., 30 anos)
AGRADECIMENTOS
ESTE LIVRO comeou como um conto (alguns diro que deveria
ter continuado assim) para o editor Paulo Pires e virou uma
novela por sugesto de duas mulheres to bonitas quanto os
textos que escrevem, Leticia Wierzchowski e Cntia Moscovich.
Reclamaes devero ser feitas diretamente a elas.
Com inspirao descarada em Paul Auster, pedi a amigas -
todas bonitas, diga-se - histrias verdadeiras acontecidas com
elas (ou no) para encerrar este livro. O ltimo captulo,
portanto, no existiria sem Julia Duarte, Patrcia Rocha, Paula
Luce, Lucia Riff, Mia Tajes, Lisiane Silveira, Roberta
Anacleto, Grace Meurer, Luciana Arnhold, Sabrina Guzzon, Cana
Paludo, Patrcia Mota, Maria Clara lajes, Sabrina Afonso,
Leah Macedo, Carla Schertel, Claudia Schneider, Larissa Roso,
Adriane Carvalho e Cibele Fontoura.
Outras cinco mulheres bonitas que foram importantes
nesta histria: Paula Taitelbaum, Martha Medeiros, Ktia
Suman, Daniela Espndola e Rosaura Cavalheiro.
Por ltimo, dois homens bonitos que no poderiam faltar,
nem no livro, nem na vida: Theo (sempre) e Charles Cruz.
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